Dando o Fora Especial Maratona

Vini se torna um maratonista; Potencial oculto; A parte do meio é a mais difícil; O que importa é o processo; Cinco aprendizados para criar força de vontade em momentos difíceis.

Hoje no Dando o Fora: Vini se torna um maratonista; Potencial oculto; A parte do meio é a mais difícil; O que importa é o processo; Cinco aprendizados para criar força de vontade em momentos difíceis.   

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Neste domingo, eu (Vini) corri minha primeira maratona. 42,195km de Courseulles-sur-Mer à Caen, celebrando os 80 anos do desembarque aliado no Dia-D que lançou a batalha pela liberação da França da ocupação Nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Não era a maratona que eu tinha em mente durante os quatro meses de treinos diários e quase não consegui participar, pois quando me vi forçado por questões logísticas a mudar os planos, a Maratona da Liberdade já estava esgotada. Mas as coisas têm um jeito de se arranjar. Três semanas antes da corrida recebi notícia que uma vaga havia sido liberada. Era pra ser. Não poderia haver uma maratona mais parecida comigo, que desde os 12 anos sou obcecado pela história da Segunda Guerra Mundial. Enquanto corríamos os primeiros quilômetros na Juno Beach, aviões militares antigos faziam manobras acima de nossas cabeças. Entre a euforia da maratona e o sentimento de estar no caminho certo após um período difícil, eu senti meu coração inflar. E minhas pernas correram como nunca.

Pelo menos até o KM25. Bati meu recorde pessoal de velocidade para uma meia-maratona (21,01KM em 1h57min), mas o preço foi alto. Nem em treino eu havia corrido uma distância maior que uma meia-maratona e, ao entrar na terra incognita pós-21km, minhas pernas rapidamente começaram a se revoltar contra minha força de vontade. No KM34, subindo uma de várias subidas íngremes, elas pararam de vez. Até andar foi difícil. Parecia que minhas únicas opções eram mancar os próximos 8 quilômetros (e arriscar desclassificação) ou sentar e chorar. Mandei mensagem para a Thaís que não sabia se iria conseguir, mas não esperei resposta. Não queria ouvir encorajamento, pois achava que havia chegado no limite extremo. Fiquei parado uns minutos, sem saber o que fazer, tentando negociar com minhas pernas, sem sucesso. 

Foi aí que percebi a paz que reinava à minha volta: as vacas pastando, as árvores balançando com as rajadas de vento, os insetos dançando entre as flores do campo. De que importava se eu saísse da maratona? Eu ainda poderia treinar mais e correr outras. Eu não seria uma pessoa nem melhor nem pior por decidir que tinha chegado ao limite dos meus esforços e parar. A natureza em volta me lembrou que eu tinha total e plena permissão para abrir mão de um objetivo; me permitir falhar naquele momento, sabendo que eu havia dado o meu melhor até aquele ponto. Foi no momento em que eu me permiti desistir que eu vi que não tinha nada a perder. Então por que não continuar andando só até o próximo quilômetro antes de desistir? Coloquei meus headphones (que a Thaís havia insistido que eu levasse, em caso de urgência!) e fui mancando ao som de Chiclete com Banana. Ao chegar no KM35, me deparei com dois homens da minha idade que também pareciam sofrer com muita cãibra nas coxas. Estavam se alongando rente a um muro em ruínas e ao vê-los quase chorando de dor, me senti de certa forma abraçado. Me too. Parei para me alongar com eles, copiando as posições pois eles pareciam saber o que estavam fazendo. Eles se foram antes que eu acabasse, trotando devagar e xingando cada passo. Não ficamos amigos, mas tampouco eram estranhos quaisquer. Cinco minutos compartilhando dor, frustração e perseverança foram suficientes para nos conectar e me mostrar que eu não estava só. E após alguns passos tímidos, lá fui eu também num trote leve… me tornar um maratonista.       

Todo Dando o Fora é especial, único. Mas a newsletter desta semana é particularmente especial porque representa um fechamento de ciclo tanto para mim quanto para nossa família. Um ciclo que começou com burnout, depressão e déficit de auto-estima e que -  com esforço, mudanças de hábito e reflexão, - vai se fechando com com chave de ouro. Ou melhor, medalha de ouro.

Através dos meus aprendizados da maratona, bora dar o fora dos nossos limites internos?

Dando o fora em…

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Potencial oculto.

Eu sempre gostei de correr, mas foi somente a partir de Agosto de 2022 que comecei a nutrir sonhos de que eu poderia me lançar na corrida como um verdadeiro hobby. Naquele mês fiz uma avaliação física com meu personal trainer para começar a treinar de forma mais efetiva para perder peso e reforçar a musculatura. Após concluirmos a avaliação do meu VO2 na esteira, meu treinador elogiou minha capacidade, disposição e forma de corrida. “Você tem jeito pra coisa, Vini,” ele disse. E isso ficou na minha cabeça. Comecei a correr com mais empenho e, à medida que fui melhorando, fui naturalmente gostando mais e mais de correr. Entrei no ciclo virtuoso que me trouxe até aqui. Claro que tenho mérito, mas tudo começou com um simples comentário positivo de alguém que viu meu potencial oculto. 

Em seu livro Potencial Oculto, Adam Grant explora exatamente isso, como pequenas ações e comentários positivos podem ter um impacto profundo no desenvolvimento das habilidades e na confiança de uma pessoa. Ele argumenta que muitas vezes, as pessoas precisam de um estímulo externo (por exemplo, de um professor ou mentor) para perceber e alcançar seu verdadeiro potencial. Grant explica que reconhecer e incentivar o potencial oculto dos outros pode ser a chave para desbloquear capacidades que, de outra forma, poderiam permanecer adormecidas. Isso está diretamente relacionado à minha experiência, onde um simples elogio do meu treinador serviu como um catalisador para que eu me empenhasse mais na corrida e descobrisse meu verdadeiro gosto por essa atividade.

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A parte do meio é a mais difícil.

Talvez eu tenha sido pego desprevenido pelas minhas pernas no meio da maratona. Mas ao contar sobre a prova à minha família, amigos e colegas corredores, ninguém ficou surpreso. Quase todos os desafios parecem ainda mais difíceis quando estamos no meio da coisa. Já não temos o fôlego do início e ainda estamos muito longe do fim. Seth Godin chama de “vão” (dip) aquele ponto extremamente difícil e completamente desanimador de cada projeto. Exatamente o que eu senti no KM34.

Andrew Huberman, neurocientista da Universidade de Stanford, explica a biologia por trás do “vão”. Segundo ele, nossa dificuldade em lidar com a parte do meio de projetos desafiadores está ligada à dinâmica do nosso sistema de motivação e ao modo como percebemos o progresso ao longo de uma tarefa. No início de um desafio, a dopamina - neurotransmissor associado à motivação e ao prazer - está elevada, o que nos ajuda a começar a tarefa com energia e foco. Da mesma forma, a reta final de um desafio é motivada pela proximidade do objetivo, que novamente eleva nossos níveis de dopamina e nos dá um impulso para concluir o projeto. No entanto, na parte do meio, nossos níveis de dopamina tendem a despencar, levando junto nosso foco e força de vontade.

Para superar essa dificuldade, Huberman sugere criar checkpoints ou metas intermediárias ao longo do caminho. Ao dividir o desafio em partes menores e celebrar pequenas vitórias, podemos manter os níveis de dopamina mais constantes. Isso cria um ciclo de recompensas frequentes que ajuda a sustentar a motivação e a força de vontade durante toda a jornada. Eu confesso que durante o pior da corrida não lembrei das várias conversas que Thaís e eu tivemos sobre este episódio do podcast do Huberman. Mas as conversas devem ter ficado na minha cabeça, pois foi exatamente o que eu fiz para conseguir terminar a prova. No desespero do KM34-35, eu nunca teria conseguido pensar em correr mais 8KM. Mas foquei em correr um quilômetro por vez, cinco vezes, até o KM40. Eu apostei que se chegasse lá, os dois últimos quilômetros iam passar voando. E assim foi. Obrigado Huberman.

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O que importa é o processo.

De todas as lições de vida que apliquei e re-aprendi durante a corrida, talvez a principal seja a importância de focar no processo e não no resultado. Minha maratona não foi o resultado de 4h36 de corrida. Foi o resultado de mais de um ano de treinos quase diários, centenas de quilômetros corridos e centenas de horas na academia, muitas dessas horas antes do sol nascer. 

Nos dias antes da maratona, Thaís me lembrou várias vezes do conselho do Huberman para evitar overdose de dopamina ao completar um desafio: focar no processo. Ao atravessar a linha de chegada, não pensar na medalha ou na corrida em si, mas sim em todos aqueles dias acordando às auroras para treinar. Do contrário, o foco excessivo na recompensa final (por exemplo: a medalha, ou postar nas mídias sociais sobre a maratona) pode levar a um esgotamento motivacional. O cérebro se acostuma a níveis elevados de dopamina, resultando em uma menor resposta a recompensas futuras. Dopamina é bom, mas pode ser uma droga.

Acho que levei o conselho do Huberman muito a sério. Ao receber a medalha do Arthur na chegada, guardei na bolsa e esqueci até uns dois dias depois, quando a Thaís me perguntou onde estava e eu já não tinha a mínima ideia. Realmente não sabia onde estava. E realmente não fiquei nenhum pouco incomodado. Para mim, a melhor medalha foi ver, na manhã após a corrida e ainda super dolorido, que eu já estava com saudades de treinar.

Dando o fora:

Através da minha experiência da maratona, tirei cinco lições sobre como criar força de vontade para completar desafios futuros, mesmo quando eu estiver no fundo do poço.

Reconheça e Valorize o Potencial Oculto: Minha jornada de correr como hobby começou com um simples elogio do meu treinador, que viu potencial oculto e me incentivou a continuar. Pequenos comentários positivos podem servir como catalisadores poderosos. Encorajamento e reconhecimento podem revelar talentos ocultos e motivar a superação de desafios.

Divida Grandes Desafios em Partes Menores: Durante a maratona, especialmente no KM34, foi fundamental que eu focasse em completar pequenos trechos de um quilômetro por vez. Quebrar tarefas grandes em metas menores torna-as mais gerenciáveis e mantém a motivação constante. Celebrar pequenas vitórias ajuda a sustentar o esforço ao longo do caminho.

Foque no Processo, Não Apenas no Resultado: Terminar a maratona foi o resultado de mais de um ano de treinamento consistente. Concentrar-se no processo e apreciar cada etapa do caminho ajuda a evitar a overdose de dopamina associada à conquista do objetivo final. Isso previne o esgotamento motivacional e promove uma satisfação mais duradoura.

Se dê permissão para Falhar: No KM34, tive um momento de paz e aceitação da possibilidade de desistir, o que paradoxalmente renovou minha força de vontade para continuar. Permitir-se falhar pode aliviar a pressão e ajudar a redefinir a motivação. Às vezes, aceitar que podemos abrir mão de um objetivo nos dá a liberdade para continuar de uma forma mais saudável.

Encontre Apoio e Conexão: Encontrar outros corredores enfrentando dificuldades semelhantes criou um senso de camaradagem e motivação para que eu continuasse. Conectar-se com outras pessoas que compartilham desafios semelhantes pode proporcionar suporte emocional e motivacional, mostrando que não estamos sozinhos.

São aprendizados de uma experiência altamente pessoal, mas talvez funcionem para alguns de vocês!

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