A coragem de ser imperfeito.

Arthur e o porco-espinho; A coragem de ser imperfeito; Perfeccionismo vs excelência; A beleza da imperfeição.

Hoje no Dando o Fora: Arthur e o porco-espinho; A coragem de ser imperfeito; Perfeccionismo vs excelência; A beleza da imperfeição.

Outro dia, nosso filho Arthur de 5 anos redescobriu um dos seus jogos que ensina a desenhar vários animais, passo a passo. Algo que ele não usava por meses, de repente, chamou sua atenção, atendendo a sua nova necessidade de se expor e se desafiar ao juntar duas de suas maiores paixões: arte e animais.

Enquanto o observava desenhando um porco espinho - desenhando o corpo e apagando, se julgando frente ao exemplo, e apagando, - me senti profundamente conectada com ele e sua crescente frustração, cada vez que decidia apagar um espinho ou uma pata. Percebi que sua frustração vinha da comparação com o que era lhe apresentado ali como perfeito. "Copie este animal exatamente assim. Caso contrário, você não é bom o suficiente," era como o Arthur lia as instruções daquela atividade. 

Depois de alguns minutos tentando, ele olhou para mim, suplicando:

- Mamãe, faz para mim. Eu não consigo.

- Ainda.

- O que?

- Você não consegue ainda, - repeti.

- Mas tá feio, mamãe.

- É normal a gente se sentir assim quando estamos tentando fazer algo que não conhecemos, que não sabemos fazer ainda. Você sabe desenhar, só não sabe desenhar esse animal ainda.

Arthur, frustrado com minha falta de ajuda prática, jogou a folha e a caneta para longe e saiu batendo o pé.

No dia seguinte, levei um susto enquanto aproveitava meus poucos minutos de privacidade:

- Olha mamãe, olha!, - Arthur invadiu o banheiro, gritando.

- Uau, parabéns filho! - respondi, pulando de alegria e esquecendo por um momento que estava pelada. 

Ele realmente tinha desenhado um porco espinho. E na minha opinião enviesada de mãe, um animal ainda melhor do que o do exemplo. Um porco espinho mais verdadeiro porque era imperfeito.

Eu estava orgulhosa de ver que meu filho tinha conseguido atravessar o vale da vulnerabilidade e desconforto neste pequeno desafio, sem se deixar conter pela busca do porco espinho perfeito

E eu? O que eu estou esperando para fazer todas as coisas que eu quero fazer?

Enquanto eu regurgitava sobre a minha própria luta contra o perfeccionismo, Arthur já tinha corrido para seu próximo desafio: desenhar a tartaruga.

Bora dar o fora no perfeccionismo?

Dando o fora em…

3…

A coragem de ser imperfeito.

A pesquisadora social Brené Brown, a sensação dos TED Talks, estudou o perfeccionismo e sua relação com a vulnerabilidade e a vergonha. De acordo com a autora, a perfeição é, em sua essência, uma tentativa de obter aprovação. O elogio tornou-se um sistema de crenças perigoso e debilitante: "Eu sou o que eu realizo e o quão bem eu o realizo".  Em mais detalhes, a autora diz que é importante distinguir o perfeccionismo da busca saudável pela excelência e que o perfeccionismo:

  1. É um sistema de crenças auto-destrutivo e viciante. Ele gira em torno da noção de que parecer perfeito e fazer tudo de forma impecável pode ajudar a evitar ou minimizar sentimentos dolorosos de culpa, julgamento e vergonha.

  2. Estabelece uma meta inatingível. Ele tem mais a ver com a percepção externa do que com a motivação interna, e tentar controlar a percepção é inútil.

  3. Torna-se viciante porque, quando confrontados com vergonha, julgamento ou culpa, geralmente atribuímos esses sentimentos ao fato de não sermos suficientemente perfeitos. Em vez de questionar a lógica falha do perfeccionismo, tendemos a intensificar nossos esforços para parecermos perfeitos.

  4. Cria um ciclo em que a busca da perfeição leva a sentimentos de vergonha, julgamento e culpa. Isso, por sua vez, reforça a crença de que a pessoa não é boa o suficiente, perpetuando o ciclo de emoções negativas.

Amamos as obras e as palestras de Brené Brown (inclusive na Netflix). Brené tem o dom de nos mostrar de uma forma acadêmica e prática que a busca pela perfeição nos impede de viver uma vida plena, nos levando a desperdiçar nosso precioso tempo e virar as costas para os nossos verdadeiros talentos.

Viver plenamente quer dizer abraçar a vida a partir de um sentimento de amor-próprio. Isso significa cultivar coragem, compaixão e vínculos suficientes para acordar de manhã e pensar: ‘Não importa o que eu fizer hoje ou o que eu deixar de fazer, eu tenho meu valor.’ E ir para a cama à noite e dizer: ‘Sim, eu sou imperfeito, vulnerável e às vezes tenho medo, mas isso não muda a verdade de que também sou corajoso e merecedor de amor e aceitação.

2…

Perfeccionismo vs excelência.

Neste episódio do Armchair Expert, o psicólogo organizacional Adam Grant (Wharton School of Business) conta a história de como entrou no time de mergulho olímpico no ensino médio, se tornando extremamente bom numa técnica específica de mergulho. 

Mas ao dedicar todos os seus esforços em tornar seu salto perfeito, ele deixou de experimentar outras técnicas, de inovar, se limitando ao que ele achava que sabia fazer melhor. Ele sabia que teria que tentar outros tipos de saltos, mas sempre acabava por procrastinar, achando que ainda não tinha aperfeiçoado completamente seu "mergulho perfeito". 

Um dia seu técnico cansou de esperar e o colocou contra a parede:

- Adam, você nunca vai fazer o novo mergulho?

- Como assim, nunca? Em algum momento eu vou.

- Então, o que você está esperando?

Nesse momento, ele percebeu como seu perfeccionismo o estava impedindo de ser excelente. Ele começou a utilizar esta pergunta do seu técnico em vários aspectos da sua vida, bem além do esporte: O que estou esperando para escrever meu livro? O que estou esperando para dar um TED Talk?

Sim, ele escreveu um livro. Aliás, vários. No mais recente deles, Hidden Potential, Adam Grant nos convida a dar o fora no perfeccionismo nos tornando “criaturas do desconforto”: pessoas que não fogem de tentar novas coisas ou novos modos de fazer as coisas; que buscam ativamente se colocar em situações desconfortáveis e que falham de forma proativa para acelerar seu desenvolvimento.

1…

A beleza da imperfeição.

A cultura japonesa nos oferece uma forma saudável de lidar com o perfeccionismo (na verdade com a imperfeição). 

Wabi-sabi é um conceito da cultura japonesa que nos convida a apreciar a beleza da imperfeição e da simplicidade, aceitando a natureza transitória das coisas. O wabi-sabi é sobre celebrar a vida exatamente como ela é.

  • A perfeição é um ideal, fora da realidade. No dia-a-dia, mesmo dando o melhor de si, tudo pode ser aprimorado. Se a atividade ficou incompleta ou está imperfeita, ela é bela do jeito que é, pois foi o que pôde ser feito naquele momento. Dê valor e aprecie. O que foi feito é real.

  • A base de relacionamentos saudáveis é evitar expectativas e suposições sobre os outros, aceitando que todas as pessoas têm virtudes e defeitos. Aproveite o momento com as pessoas pelo que elas realmente são e não pelo que se idealiza delas.

  • O wabi-sabi pode ser aplicado em casa. Por exemplo, ao invés de decorações fabricadas industrialmente, busque escolher elementos artesanais, feitos por você, amigos, familiares ou artesãos. Por exemplo, nós amamos tomar nosso café nessas canecas artesanais que ganhamos de presente da família de Vini. 

O wabi-sabi é um lindo lembrete de que todos somos perfeitamente imperfeitos, assim como o desenho do Arthur.

Copyright: Thaís Roque 2023

Dando o fora:

Dando o fora no perfeccionismo: Quatro dicas práticas.

  1. Meditação: Uma prática regular de meditação leva a uma maior atenção plena.  A atenção plena permite maior perspectiva, amor-próprio e compaixão.  Nós usamos o aplicativo Calm, que inclui algumas meditações sobre perfeccionismo, como esta do Jay Shetty (em Inglês). E lembre-se de que o objetivo é dar o seu melhor e lembrar que não existe uma maneira "perfeita" de meditar. É por isso que se chama prática.

  2. Redefina suas metas como guias: Estabelecer metas é positivo para esclarecer objetivos e aumentar o esforço. Entretanto, os perfeccionistas transformam as metas em padrões mínimos ao invés de objetivos. A sugestão é trocar o termo “meta” por "guia". Um guia orienta a tomada de decisões e ações no presente, mas permite flexibilidade. Já as metas, se se tornarem rígidas e inatingíveis, podem nos impedir de redirecionar os esforços para algo diferente. Pior ainda, se a meta é imutável e você não a atinge, você corre o risco de se ver como um fracasso, ao invés de alguém que, por diversas razões, simplesmente não conseguiu atingir sua meta.

  3. Comemore seus sucessos.  Sempre. Crie o hábito de escrever de três a cinco conquistas todos os dias. Antes de dormir, escreva as conquistas das quais você mais se orgulhou naquele dia. Por exemplo: 

    1. Manter a paciência quando seu filho se jogou no chão no mercado

    2. Tirar um tempo para brincar com seus filhos ou ligar para um amigo

    3. Ler a newsletter Dando o Fora ;)

Esperamos que você possa ver que você já tem muitas conquistas. Todos os dias.  E que isso é suficiente. Como diria Brené Brown: Você é suficiente! E ninguém é perfeito!

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