Dando o Fora no Déficit de Natureza

Thaís vai ao parque; Qual é a nossa natureza?; Ser ou Inter-ser?; O Poder dos Rituais; Exemplos de reconexão com a natureza e 5 dicas práticas para reconectar.

Hoje no Dando o Fora: Thaís vai ao parque; Qual é a nossa natureza?; Ser ou Inter-ser?; O Poder dos Rituais; Exemplos de reconexão com a natureza e cinco dicas práticas para reconectar.

Nota importante: Estranhou o Dando o Fora chegar tão tarde esta semana? Semana passada passamos quase todo o fim de semana com o Arthur no parque e na floresta. Dois dias (e algumas horas) de atraso não é um preço tão alto a pagar pelos ricos momentos de reconexão natural e familiar que aproveitamos. E fica a dica: sugerimos ler este Dando o Fora lá fora 🙂  

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Do alto de seus cinco anos, nosso filho Arthur passa a maior parte do seu tempo em lugares fechados: de casa pro carro, do carro à escola, da escola ao metrô, do metrô pra casa. As escolas em Paris por não terem espaço externo, incluíram pelo menos uma hora de recreio nos parques para proporcionar às crianças (e aos adultos) um tempo fora da caixa. 

Não precisamos pensar só nas crianças. Na correria do dia a dia, principalmente com a possibilidade do trabalho remoto ou híbrido, passamos cada vez mais tempo sentados na frente das telas, em ambientes fechados. Acabamos nos esquecendo das nossas reais necessidades. Isso é, até o corpo cobrar. 

O que foi exatamente o que aconteceu comigo (Thaís) em Março de 2023. Naqueles dias, eu andava em média de 3000 a 4000 passos por dia - a maioria deles em casa, - mas minha lombar e cabeça começaram a se rebelar. Queriam mais passos e mais natureza. Comecei a caminhar no parque todos os dias. Primeiro saía só por 20 minutos, celebrando cada saída. Depois de um tempo, eu já não via mais o tempo passar durante minhas caminhadas. Hoje, mais de um ano mais tarde, fico agoniada quando não vou ao parque. A dificuldade é não sair. Aprendi a olhar os detalhes da grama e das flores, a reconhecer outras pessoas que aproveitam o parque todos os dias; enfim, me reconectei não só com a natureza, mas também comigo mesma e com a comunidade ao meu redor.

As leituras dessa semana, os acontecimentos devastadores na região Sul do Brasil, a chegada da primavera, e a vontade de fugir deste mundo digital no qual vivemos, não nos deixaram escolha quanto ao tema desta semana: nossa necessidade de reconexão com a natureza. 

Nossa relação com a natureza é tão importante que há inclusive um termo, criado em 2005 nos Estados Unidos pelo jornalista Richard Louv, para se referir a problemas de saúde física, mental e emocional decorrentes da falta de contato com a natureza: Transtorno do Déficit de Natureza (TDN).

Bora dar o fora em nosso Déficit de Natureza?

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Qual é a nossa natureza?

O desmatamento, as queimadas, as enchentes, a poluição do ar, mudanças climáticas e modificações sistêmicas de ecossistemas não só têm levado a perdas massivas da biodiversidade planetária, mas também começaram a afetar a saúde e o bem-estar da população humana. 

Apesar disso, continuamos a considerar a crise planetária como um problema externo, "ecológico". É a marca da sociedade ultra-urbanizada e tecnológica atual: nos enxergamos (nós, homo sapiens) separados do mundo em que vivemos.

De acordo com Joanna Macy, existem duas visões da nossa relação com o mundo natural que atrapalham nosso relacionamento profundo com o planeta:

  1. Pensar no mundo como um recurso a ser usado para atender nossos desejos: Qualquer dano é um efeito colateral que aceitamos em busca do nosso propósito maior. Em grande escala, preservar o meio ambiente vai de contramão ao crescimento da economia. Em pequena escala, enxergamos nossa vida como separada do mundo natural. A natureza está fora de nós.

  2. Enxergar o apego ao mundo físico como impedimento da nossa jornada espiritual: Dessa forma, a terra não passa de um belo cenário para nosso desenvolvimento individual ao longo da vida terrena e uma preparação para o que, sem dúvida, virá após. 

Presos a estas formas de pensar, acreditando que precisamos provar o valor econômico dos “recursos naturais”, cujo propósito é nos servir e locupletar, condenamos a natureza à destruição. Nos concentramos no crescimento individual, da espécie, ou do espírito, sem entender a interconexão entre todas as coisas. Acabamos com desastres como as atuais enchentes no Rio Grande do Sul.

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Tentando escapar de algo de que dependemos gera uma relação de amor-ódio com ele. Isso inflama um desejo de mão dupla - destruir e possuir.

Mas existe uma alternativa. 

Poderíamos pensar no mundo natural como um “parceiro que passou muito tempo longe do cônjuge”. Essa forma de pensar pode parecer íntima demais, mas nos convida a uma verdadeira e profunda re-conexão com a natureza, vendo o mundo menos como algo externo - uma paisagem para admirar ou até amar - mas como parte de nós. 

Precisamos lembrar que somos a natureza. Só assim talvez possamos conseguir dar o fora no eu isolado e chegar a uma noção mais ampla de quem (ou do que) somos.

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Ser ou Inter-Ser?

Escrevendo as palavras acima, lembrei de uma passagem de um livro do Thich Naht Hanh

Se você for um poeta, verá claramente que há uma nuvem flutuando nessa folha de papel. Sem uma nuvem, não haverá chuva; sem chuva, as árvores não podem crescer; e sem árvores, não podemos fazer papel.

A nuvem é essencial para a existência do papel. Se a nuvem não estiver aqui, a folha de papel também não poderá estar aqui. Portanto, podemos dizer que a nuvem e o papel estão interligados. "Inter-ser" é uma palavra que ainda não consta no dicionário, mas se combinarmos o prefixo "inter-" com o verbo "ser", teremos um novo verbo, inter-ser. Sem uma nuvem e a folha de papel, inter-are.

Se olharmos para essa folha de papel ainda mais profundamente, poderemos ver a luz do sol nela. Se a luz do sol não estiver lá, a floresta não poderá crescer. De fato, nada pode crescer. Nem mesmo nós podemos crescer sem a luz do sol.

Portanto, sabemos que a luz do sol também está nessa folha de papel. O papel e a luz do sol estão interligados. E se continuarmos a olhar, poderemos ver o madeireiro que cortou a árvore e a levou ao moinho para ser transformada em papel. E vemos o trigo.

Sabemos que o lenhador não pode existir sem seu pão de cada dia e, portanto, o trigo que se tornou seu pão também está nessa folha de papel. E o pai e a mãe do lenhador também estão nela. Quando olhamos dessa forma, vemos que, sem todas essas coisas, essa folha de papel não poderia existir.

Olhando ainda mais profundamente, podemos ver que também estamos nele. Isso não é difícil de ver, pois quando olhamos para uma folha de papel, a folha de papel faz parte da nossa percepção. Sua mente está aqui e a minha também.

Portanto, podemos dizer que tudo está aqui nessa folha de papel. Você não pode apontar uma coisa que não esteja aqui - o tempo, o espaço, a terra, a chuva, os minerais no solo, a luz do sol, a nuvem, o rio, o calor. Tudo coexiste com essa folha de papel.

É por isso que acho que a palavra inter-ser deveria estar no dicionário. "Ser" é inter-ser. Você não pode ser apenas você mesmo. Você precisa estar em contato com todas as outras coisas. Esta folha de papel é, porque todo o resto é.

Suponhamos que tentemos devolver um dos elementos à sua fonte. Suponha que devolvamos a luz do sol ao sol. Você acha que essa folha de papel será possível? Não, sem a luz do sol nada pode existir.

E se devolvermos o lenhador à sua mãe, também não teremos uma folha de papel. O fato é que essa folha de papel é composta apenas de "elementos que não são de papel". E se devolvermos esses elementos que não são papel às suas fontes, então não haverá papel algum.

Sem os "elementos que não são papel", como a mente, o registrador, a luz do sol e assim por diante, não haverá papel. Por mais fina que seja esta folha de papel, ela contém tudo o que existe no universo.

- Thich Nhat Hanh

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O Poder dos Rituais

Hoje temos a possibilidade de personalizar cada vez mais nossos gostos e escolhas, nossos grupos sociais e nossos interesses. Somos cada vez mais únicos, compartilhando menos similaridades uns com os outros. O resultado: uma população cada vez mais solitária, isolada e ansiosa por conexão. 

No livro O Poder do Ritual, Casper Ter Kuile explora pequenos rituais provenientes de tradições religiosas para nos ajudar a criar vidas cheias de significado e conexões. De acordo com Casper, um senso de conexão profunda não se resume a relacionamentos com outras pessoas, mas também com sentir “a plenitude de estar vivo”. É sobre ser envolto em várias camadas de pertencimento com o eu interior, com os outros, com a natureza e com a transcendência (o "divino"). 

O livro traz inúmeras ideias de como podemos nos relacionar melhor com o mundo natural e com a nossa própria natureza. Casper ressignifica três práticas (peregrinação, celebração das estações e reimaginação do calendário litúrgico) para nos lembrar de algo que deveria ser óbvio: não estamos separados da natureza; somos a própria natureza. 

A prática da peregrinação é a que faz mais sentido para mim neste momento. De acordo com Casper, toda peregrinação tem mais ou menos a mesma estrutura, com três fases:

  • estabelecimento de um propósito ou intenção, 

  • a jornada em si,

  • a integração das nossas experiências à nossa vida. 

A peregrinação não é definida pela distância, e sim pela transformação. O que mais gostei dessa ideia é que toda ida ao parque pode se tornar um momento de peregrinação. Uma caminhada de 15 minutos no parque se transforma de algo monótono em algo transformador. Com a intenção de peregrinar, caminho e percebo as mudanças na flora, nos insetos e pássaros. Percebo as mudanças em mim mesma. À medida que me conecto com partes esquecidas da paisagem do parque, começo a me conectar com partes perdidas em mim mesma.

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Fazer uma peregrinação é como vivenciar um ponto de interrogação. Tudo é novo, mesmo que tenha sido visto antes.

Casper Ter Kuile, O Poder do Ritual

Mesmo que não possamos sair de casa, a natureza pode ir até nós. Uma planta, um simples buquê de flores, as nuvens e os raios de sol que atravessam as janelas: tudo isso pode nos servir como lembrança de que fazemos parte da natureza, que “testemunhar a beleza da natureza é uma volta ao lar, trazendo um senso de plenitude e certeza para nossa vida”. 

Dando o fora no Déficit de Natureza:

Pesquisas demonstram que a relação com a natureza pode ser extremamente benéfica e que estar perto da natureza tem relação com a melhora de vários índices de saúde e de bem-estar, como a diminuição da pressão arterial, a redução dos hormônios associados ao estresse, a melhora dos batimentos cardíacos, do humor, da função cognitiva, por exemplo. Pesquisadores concluíram que são necessárias, ao menos, 2 horas semanais (em um dia ou ao decorrer da semana) de contato com a natureza, seja nos parques urbanos ou nas montanhas, para que as pessoas sintam melhora na saúde e na própria sensação de bem-estar. 

Pensando nos benefícios da natureza na nossa saúde física e mental, na nossa interconexão com a natureza e com tudo o que está acontecendo ao nosso redor, achamos que o dando o fora de hoje podia ser um pouco diferente. Trazemos para vocês alguns links interessantes sobre exemplos de projetos que estão lutando para essa conexão e ideias de atividades para fazer sozinho, em família ou em comunidade.

Deixando a natureza voltar: Exemplos de restauração e reconexão

Você também pode se reconectar com a natureza: 5 Dicas práticas

  • Quantas destas 80 atividades você consegue fazer, sozinho ou com crianças, num dia de parque, praia ou natureza? O Programa Criança e Natureza do Instituto Alana promove ações e disponibiliza recursos para que proporcionemos a nossas crianças uma infância onde a criança é deixada livre para experimentar-se em movimento na natureza, acompanhando seu próprio ritmo e tempo. 

  • Que tal um banho de floresta? Leve sua vida pra fora, fazendo sessões de esporte ou até organizando suas sessões de terapia ou bate-papo com amigos em espaços verdes.

  • Nada como uma caminhada para resolver todos os problemas! Este estudo apontou que a terapia ou coaching feitos em modo "Walk and Talk" (conversando e caminhando) num ambiente natural pode reduzir efetivamente os sintomas de esgotamento (burnout), com algumas melhorias na saúde mental já visíveis após a segunda caminhada.

  • Entre na onda do ecoturismo. A Campanha UM DIA NO PARQUE do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) nos incentiva a visitar todo dia 23 de julho uma das mais de 2 mil unidades de conservação que ajudam a proteger a biodiversidade brasileira e a história de seus povos originários.

  • Traga a natureza para dentro de casa (comendo melhor e ainda economizando dinheiro!) aprendendo como plantar em pequenos espaços ou criar jardins nutritivos no meio da cidade. Em casa nós adotamos este guia, mas há vários dentre os quais escolher.

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