Epidemia da solidão.

Epidemia da solidão; Pertencimento e autenticidade, A felicidade são os outros; Desafio #DandoOFora da solidão em 7 dias.

Hoje no Dando o Fora: Epidemia da solidão; Pertencimento e autenticidade, A felicidade são os outros; Desafio #DandoOFora da solidão em 7 dias.

A ideia para da newsletter dessa semana surgiu na viagem de carro de volta a Paris da Normandia. Mesmo sem ter morado nos Estados Unidos, Arthur parece que sabe que, passada a "Black Friday", já vale começar a contagem regressiva para o Natal. E a sua contagem regressiva começou com o filme do Grinch.

"Papai, mamãe, o Grinch quer roubar o Natal porque ele é malvado?"

"Ele não é malvado, filho. Ele só é muito triste por não ter amigos."

"Ah mamãe, ele tem um coração bem piquititinho, né? Por que o coraçãozinho dele é tão pequeno? É porque ele vive sozinho?"

Nós pensamos nas mesmas duas coisas imediatamente: nos nefastos efeitos físicos e mentais da solidão abordados pelo psiquiatra canadense, Gabor Maté, em seu livro O Mito do Normal; e que a solidão seria um tópico perfeito para começar a contagem regressiva para as festas de fim de ano aqui no Dando o Fora.

A solidão não deixa nossos corações "piquititinhos" como o do Grinch. Mas ela pode fazer bem pior, prejudicando todo o nosso corpo, mente e senso de existência.

Bora dar o fora na solidão?

Dando o fora em…

3…

Epidemia da Solidão.

Em seu livro O Mito do Normal, e em vários vídeos, Gabor Maté alerta que vivemos numa pandemia da solidão. No Brasil, por exemplo, metade da população se sente solitária

Gabor é claro na sua mensagem: a solidão mata. E é tão perigosa quanto fumar 15 cigarros por dia em termos de causar doenças ou potencializar doenças e morte. Estima-se que o isolamento social e a solidão reduzam a expectativa de vida de uma pessoa em até 15 anos. O problema adquiriu tantas proporções societais que já foi incorporado como tema-chave da administração pública. O governo do Reino Unido, por exemplo, conta desde 2018 com um “Ministro da Solidão”, cargo atualmente ocupado por Stuart Andrew (entre outras funções). Além dos riscos para a saúde individual, a epidemia da solidão também vem sendo estudada pelos seus impactos sociais mais amplos, como o aumento do extremismo político e ideológico.

Em meio à epidemia da solidão, com estudo após estudo apontando tendências bastante negativas para o futuro próximo, Gabor se mantém otimista sobre a natureza social do ser humano.

[A solidão] não é a nossa verdadeira natureza. Nos venderam uma ideia errada sobre o que é a natureza humana. A natureza humana não é assim…Podemos encontrar nosso caminho de volta. Podemos abraçar isso. E seremos muito mais saudáveis, tanto como grupo quanto como indivíduos.

O Viktor Frankl, de quem falamos na nossa última newsletter, ficaria orgulhoso do otimismo trágico do seu colega de profissão.

2…

Pertencimento e autenticidade.

Somos uma espécie social e, como seres humanos, nascemos com necessidades fisiológicas para nossa sobrevivência em longo prazo. De acordo com Gabor Maté há duas necessidades específicas dos seres humanos: pertencimento/apego (attachment) e autenticidade. 

A solidão está associada a uma frustração em ambos os campos. Quem se sente isolado sente-se privado tanto de pertencimento quanto do “sentir-se útil”. Gabor Maté destaca a necessidade humana inerente de buscar significado e seu impacto significativo no bem-estar físico e mental. Assim, quanto mais significativa for sua vida, melhores serão suas medidas de saúde física e mental.

O problema hoje em dia é que vivemos numa época onde estamos aparentemente conectados uns aos outros o tempo todo, mas na verdade estamos cada vez mais isolados uns dos outros. Estamos competindo por atenção através das mídias sociais e ao mesmo tempo abdicando de uma verdadeira comunidade onde possamos dividir nossos problemas, nos sentir realmente vistos e ouvidos.

Um dos grandes perigos, Gabor alerta, é que as grandes empresas como TikTok ou Facebook são ótimas em explorar essa nossa necessidade relacional, comercializando produtos como capazes de oferecer pertencimento e identificação. Empresas com consciência de marca, como a Nike ou a Apple, estão comercializando muito mais do que produtos: elas vendem “significado, identificação e um senso de pertencimento por meio da associação com sua marca”.

Com tudo isso, acabamos nos distanciando cada vez mais da nossa segunda necessidade: sentir-se autêntico. Descobrir quem somos dentro do grupo. Esse atrito entre querer pertencer e ao mesmo tempo querer expressar quem realmente somos, acaba nos distanciando cada vez mais não só de conexões profundas (pois sentimos uma necessidade imensa de esconder quem somos com medo da rejeição) como também de nós mesmos. 

Uma forma de lidar com esse atrito é lembrar-se que:

O verdadeiro pertencimento não exige que mudemos quem somos. Exige que sejamos quem somos.

1…

A felicidade são os outros.

O New York Times começou o ano de 2023 com uma série de artigos sobre a conexão entre felicidade e relacionamentos.

O primeiro artigo apresentava o Estudo de Desenvolvimento Adulto de Harvard, o estudo mais longo e aprofundado sobre a felicidade humana no mundo, iniciado em 1938 e ativo até os dias de hoje. O Estudo hoje cobre dados de três gerações e mais de 1300 descendentes dos 724 participantes originais, pessoas de todos os níveis de inteligência (QI), patrimônio material e classe social. A partir de mais de 85 anos de dados de saúde, desenvolvimento psicológico e mostras de DNA (25 participantes até mesmo doaram seus cérebros para o estudo após suas mortes), uma descoberta muito clara emergiu: pessoas em relacionamentos mais sólidos não são apenas mais felizes mas também permanecem fisicamente mais saudáveis ​​à medida que envelhecem. Mais do que riqueza, QI ou classe social, é a solidez dos nossos laços que mais determina se nos sentimos realizados.

Ou seja, Jean Paul Sartre acertou em cheio ao emitir a frase célebre (ainda que facilmente tirada de contexto) em sua peça Huis clos, onde três personagens se encontram presos no inferno, alternando no papel de carrasco:

O inferno são os outros.

Jean-Paul Sartre, Entre Quatro Paredes

Sartre coloca nossos relacionamentos - com os "outros" - como peças fundamentais para desenvolvermos nosso auto-conhecimento e construirmos nossa identidade, caminho que a filosofia (e a maior parte dos psicólogos) acredita ser essencial para o sentimento de realização e felicidade plena. 

Os pesquisadores americanos de Harvard provavelmente concordariam com Sartre que o caminho rumo à felicidade passa pela reconexão, com os outros e consigo mesmo. Mas, apesar de desconfortável, esta busca pela felicidade através dos relacionamentos não precisa ser infernal à la française. Podemos nos divertir no processo.

Dando o fora #DESAFIO:

Dando o fora na solidão em 7 dias.

As partes mais divertidas (e úteis!) da série de artigos do New York Times sobre felicidade foram, sem dúvida, os desafios que acompanhavam cada artigo, totalizando um "Desafio da Felicidade em 7 dias". Nós (ainda) não fizemos o desafio, mas no Dando O Fora, quando a gente fala, a gente faz. Então fica a nossa promessa: vamos reservar uma semana para completar o desafio até o fim de 2023 e você receberá nosso feedback em primeira mão na última newsletter do ano!

Traduzimos uma versão beeeeeem resumida (porém ainda longa) do Desafio abaixo para vocês fazerem conosco. É um ótimo exercício para terminar o ano fazendo um inventário dos nossos relacionamentos e pensar em como podemos expandir e aprofundar nossa rede de laços sócio-emocionais.

Dia 1: Faça um balanço de seus relacionamentos respondendo a estas perguntas.

  • Você se sente satisfeito com o número de amigos próximos que tem?

  • Você se sente à vontade iniciando conversas casuais com as pessoas?

  • Com quantos membros da família você tem relacionamentos próximos?

  • Quantas pessoas você poderia chamar no meio da noite se precisasse de ajuda?

  • Quando foi a última vez que expressou gratidão a alguém importante em sua vida?

  • Você participa de alguma atividade em grupo, seja presencial ou virtual?

  • Pense no seu melhor amigo (alguém que não mora com você). Quantas horas você teve contato com eles no último mês?

  • Você tem um parceiro? Se sim, quanto da sua atividade social inclui essa pessoa?

  • Imagine seu membro da família mais próximo. Se você nunca mais pudesse falar com ele, ele saberia como você se sente em relação a ele?

  • Você se sente satisfeito com as conexões que tem com as pessoas no trabalho?

  • Quando foi a última vez que iniciou um plano social com alguém?

  • Quando foi a última vez que disse "sim" quando alguém propôs um plano social para você?

Dia 2: O poder secreto da chamada de 8 minutos

Um estudo de 240 adultos em 2021 descobriu que, quando os participantes recebiam breves ligações telefônicas algumas vezes por semana, seus níveis de depressão, solidão e ansiedade eram "rapidamente reduzidos" em comparação com pessoas que não recebiam uma ligação.

Pense em uma pessoa que você ama: alguém que você sente falta, alguém com quem gostaria de se conectar com mais frequência. Envie a essa pessoa uma mensagem rápida perguntando se podem conversar por oito minutos ao telefone - idealmente, hoje, mas se não for possível, agende para algum momento nesta semana. Você pode até copiar e colar o seguinte:

Oi! Li isso no http://dandoofora.com e pensei em você. Quer agendar uma ligação de oito minutos esta semana?

Após os oito minutos, decidam juntos quando será o próximo encontro e, ao cumprir o tempo, encerrem a conversa prontamente.

Dia 3: Converse com alguém que você não conhece.

Pergunte ao atendente do supermercado como está o dia dele. Comente sobre o bebê fofo de uma estranha (poucas pessoas resistem a falar sobre seus bebês).

Sim, começar pequenas conversas pode ser constrangedor. Mas as pessoas geralmente gostam de nós mais do que presumimos. Se você tentar falar com um estranho hoje e realmente for ignorado ou rejeitado, lembre-se de que ele não te conhece, então não está te rejeitando por quem você é.

Dia 4: Agradeça a alguém especial.

Pense pelo que você agradeceria uma pessoa próxima, se achasse que nunca mais a veria. Reserve alguns minutos e escreva o que diria a ela, com o máximo de exemplos específicos possível. Não pense demais: pode ser algo rápido e do coração. Em seguida, envie - por e-mail, mensagem de texto, o que for. O meio não importa; o que importa é enviar.

Pesquisas mostram que escrever uma nota de apreço para alguém tem um impacto positivo imediato nos sentimentos de bem-estar e conexão, tanto para você quanto para o destinatário.

Dia 5: Aproxime-se de um colega de trabalho.

Entre em contato com alguém no trabalho - ou, se você for estudante, na escola - que você gostaria de conhecer melhor.

Você pode se inspirar destas quatro maneiras de criar novas conexões no ambiente de trabalho: 

  • Faça um acompanhamento sobre algo que uma pessoa mencionou em uma reunião ou em um ambiente de grupo (para alguém que você não conhece).

  • Convide-os para fazer algo casual que leve apenas alguns minutos (para um colega que você gostaria de conhecer melhor).

  • Chegue cedo em uma ligação e faça uma conversa antes de todos começarem a trabalhar (se você trabalha remotamente).

Dia 6: Agende um plano social.

Faça um plano social e coloque-o na agenda. Uma caminhada com o velho amigo que você nunca vê? Um almoço com um ex-colega? Se você alguma vez já disse a alguém (que você goste) que deveriam tomar um café "um dia destes", hoje é o dia. Não cancele nem adie.

Dia 7: Três maneiras de preparar-se para manter a felicidade em alta o ano inteiro.

  • Estabeleça metas específicas de relacionamentos para o ano: comprometa-se a fortalecer seus vínculos como uma prática contínua, mesmo que seja em doses muito pequenas e fáceis.

  • Comprometa-se com a consistência: reconheça que você não se aproximará das pessoas a menos que, e até que, esteja interagindo com elas de forma consistente.

  • O ritual é fundamental: organize os momentos comuns que você tem com seus relacionamentos e os transforme em rituais. Dê a eles um nome (por exemplo, "jantar de sábado" ou "cafés nas manhãs de quinta-feira").

Dia 8 (BONUS): Ajude alguém a dar o fora da solidão!

Você concluiu o desafio com sucesso? Ou talvez a solidão nunca foi um problema? Você ainda pode ter significado na vida de alguém que esteja se sentindo só. Identifique alguém na sua vizinhança, grupo de conhecidos ou no trabalho e inicie uma conversa ou chame para tomar um café. Com um simples gesto, podemos mudar o dia (ou até a vida) de muita gente.

Vamos dar o fora na solidão juntos?

P.S.

Dicas da Thaís:

Música: One Call Away (Charlie Puth). Um grande amigo me enviou essa música que sempre escuto quando me sinto só. Ótima para lembrar que muitas vezes a resposta para quebrar a solidão está only one call away!

Ficção: Eleanor Olifante está muito bem (Gail Honeyman): Li este romance há algum tempo, mas ele cai como uma luva para ilustrar através de personagens comoventes o poder que temos de ajudar uns aos outros a dar o fora na solidão.

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