Dando o Fora no Viés de Confirmação

Thaís e o Brexit; Viés de confirmação e Sherlock Holmes; Escapando de crenças tóxicas; As mídias sociais e como dar o fora na câmara de eco.

Hoje no Dando o Fora: Thaís e o Brexit; Viés de confirmação e Sherlock Holmes; Escapando de crenças tóxicas; As mídias sociais e como dar o fora na câmara de eco.

O ano de 2015 foi muito surpreendente. Foi o ano em que eu, Thaís, liderei uma campanha para criar bolsas para estudantes refugiados. Foi o ano em que eu conheci meu futuro marido e parceiro para todos os Foras que dei desde então. Foi também o ano em que ressurgiu, com mais força que nunca, a ameaça do Brexit - a saída do Reino Unido da União Europeia. 

Como a maior parte dos meus conhecidos e professores em Oxford, e até mesmo analistas de quem eu calhava ler sobre o assunto, eu não acreditava que o Brexit pudesse acontecer… Até que assisti a essa propaganda da campanha "Vote Leave" (Vote para o Reino Unido Deixar a UE), numa sala de espera de um hospital, esperando há horas para ser atendida. A mensagem era tão simples, mas tão convincente: Quem gostaria de um país com um sistema público de saúde sucateado? Até eu, doutoranda, imigrante e (gosto de pensar) bem informada, senti o apelo em favor do Brexit. Meu senso crítico identificou imediatamente a manipulação da propaganda - hoje sabemos que o Brexit só piorou a situação da saúde pública -, mas ali naquele hospital me perguntei pela primeira vez: será que o Brexit pode acontecer? Senti, pela primeira vez, que vivia numa bolha acadêmica, progressista e globalizada.

Desde então, não só o Brexit aconteceu. Como também o Trump, o Bolsonaro e o Milei. E cada vez, o que dentro da minha bolha parecia impossível, acabou virando inevitável. Cada um desses eventos "inesperados" poderia talvez ter sido evitado caso cada um de nós tivesse saído um pouquinho da nossa bolha, seja ela social, cultural ou ideológica, e tentado entender melhor os outros lados. Mas nosso cérebro pré-histórico curte viver na bolha. Significa proteção, sobrevivência e status social. Tanto que ao construir os algoritmos das mídias sociais, estamos replicando e exponencializando um algoritmo muito orgânico que desenvolvemos há milhares de anos: o viés de confirmação. 

É este viés - talvez o pai dos vieses - que nos torna obcecados por estarmos "certos", por ouvir somente o que queremos ouvir, por confirmar o que acreditamos já saber. Sem nem percebermos o quão somos enviesados, estamos mais e mais dividindo o mundo em mundinhos pequenos, bolhas que se cruzam mas não se tocam. E enquanto não quebrarmos nossas bolhas - acredite, todo mundo tem uma - os próximos Brexits continuarão a nos surpreender.

Bora dar o fora no viés de confirmação? 

Dando o fora em…

3…

Viés de confirmação e Sherlock Holmes.

Que jogue a primeira pedra quem nunca deu um “google” para procurar uma diagnose de uma dor repentina e constante, como a dor que tive essa semana inteira no olho direito. Quando comecei a buscar, tinha um palpite mas não tinha certeza. Então o que fiz? Procurei por informações que confirmaram minhas suspeitas: sintomas de glaucoma. "Aha, eu sabia! A dor de cabeça que se espalha, as manchas oculares, a pressão por trás do olho. Devo estar com um glaucoma." Quando encontrei essa confirmação inevitável, convencida de que estava certa o tempo todo, parei de procurar e me desesperei. “Ahhhhh, vou ficar cega!”. Mas pera aí? O que é isso? Quando vi uma foto do que pessoas com glaucoma enxergam e lembrei da Navalha de Ockham (a explicação mais simples geralmente é a melhor), percebi que estava realmente cega: cega ao meu viés de confirmação.

O viés de confirmação, identificado pela primeira vez pelos gregos antigos, é a tendência que nos influencia a confiar mais nas informações que concordam com o que já acreditamos e a desconsiderar opiniões e dados que discordam de nossas crenças. Quando achamos que algo é verdade, nosso cérebro começa a trabalhar para encontrar evidências que apoiem nossa teoria, já que aceitar informações que confirmam nossas crenças é mais fácil e requer pouca energia mental.

Com certeza o viés de confirmação só acontece no caso de pontos de vista arraigados, ideológicos ou emocionalmente carregados. Certo? Errado.

Um estudo de 1979 mostrou que quando temos que defender uma posição, mesmo sobre algo que acabamos de aprender, tendemos a procurar provas para validar o que já acreditamos saber. O mais interessante nesse estudo é que ele não se refere a tópicos de carga emocional, relacionados a algo que poderia abalar nossa identidade e ideia de mundo. Esse viés é tão forte e enraizado na nossa memória coletiva de espécie que enviesa mesmo as menores das decisões, se não prestarmos atenção. 

Charles Darwin costumava dizer que, sempre que se deparava com algo que contradizia uma de suas conclusões, se forçava a escrever a nova descoberta em 30 minutos.  Caso contrário, sua mente trabalharia para rejeitar as informações discordantes. Darwin sabia que não existe observação neutra. Não conseguimos só observar o mundo: estamos sempre interpretando-o, de acordo com nossas crenças, curiosidades e perguntas. 

Para desenvolver um pouco de resistência ao viés de confirmação, precisamos separar entre o desejo de estar certo, que é uma busca positiva da verdade, de crescimento, e o desejo de ter estado certo, que é uma inclinação orgulhosa que impede a autoconsciência e o progresso do conhecimento.

A menos que trabalhemos ativamente para neutralizá-la, a tendência a um viés de confirmação permanece forte durante toda a vida, reforçada por um viés de ação e não de pensamento, de decisões rápidas e não de reflexões cuidadosas. 

Para combater o viés de confirmação, considere estas dicas baseadas nas condutas de Sherlock Holmes

  1. Pause. Processe. Prossiga. Esteja atento e presente, e lembre-se do viés de confirmação. 

  2. Permita que as evidências te guiem, em vez de conformá-las às suas noções preconcebidas.

  3. Diversifique as fontes de informação: Busque informações de veículos de notícias confiáveis com diversos pontos de vista para obter uma compreensão abrangente sobre tópicos. 

  4. Busque a “desconfirmação”, um termo para informações que contradizem ativamente opiniões preconcebidas. 

  5. Verifique os fatos e as fontes: Antes de compartilhar qualquer conteúdo, priorize a avaliação crítica e a verificação dos fatos. Lembre-se de que o comunicador muitas vezes não é a fonte da informação.

  6. Aborde conversas com o objetivo de compreender e não de converter os outros à sua perspectiva.

E o mais importante…

  1. Reavalie constantemente: Holmes não tem medo de rever suas conclusões iniciais quando se depara com novas evidências. Sua disposição para se adaptar e reavaliar demonstra uma humildade intelectual que muitas vezes nos falta quando estamos entrincheirados no viés de confirmação.

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Viés de confirmação: uma ferramenta útil para escapar de crenças tóxicas?

Quando estávamos pesquisando sobre o viés de confirmação, percebemos que ele é sempre apresentado como algo a ser evitado. 

Mesmo dedicando grande parte dessa nossa newsletter a um tratamento do viés de confirmação como algo perigoso, decidimos colocar o chapéu de Sherlock Holmes e nos perguntamos: será que existem momentos em nossas vidas ou situações onde podemos nos servir desse viés para construir algo positivo?

Infelizmente não conseguimos encontrar nenhum artigo científico dedicado a demonstrar o lado positivo do viés de confirmação, mas pensando de forma menos científica e mais “esotérica”: será que poderíamos usar o viés de confirmação para dar o fora em crenças tóxicas?

Aqui estão alguns exemplos de crenças tóxicas comuns que carregamos. Preste atenção àquelas que geram sentimentos de desconforto em você:

  • Sou irremediavelmente imperfeito.

  • Não sou amável.

  • Sou ruim.

  • Não mereço coisas boas.

  • Sou um fracasso.

  • Sou fraco.

  • Não sou suficiente.

  • Não tenho importância.

Se meu pensamento é: “Thaís, você não sabe escrever. Você não tem o que acrescentar”. Meu viés de confirmação vai procurar evidências, por exemplo, quando apago uma frase 10 vezes e não sei bem como seguir em frente, e confirmar o que eu já sabia: “eu não sei escrever”. 

Mas se eu me perguntar: como você sabe que você não sabe escrever? E eu disser: eu sei porque eu me sinto insegura, eu sei porque eu não acho que as pessoas vão se interessar pelo o que eu tenho a dizer, eu sei porque eu não tenho o que agregar… todas as respostas que vêm depois do “porque” me dão uma ideia das minhas crenças tóxicas que me fazem sentir insegura e despreparada.

Assim como Sherlock Holmes, talvez possamos procurar por evidências que “desconfirmem” nossas crenças tóxicas. No meu caso, posso escolher focar no fato de eu já ter escrito algumas newsletters, uma tese de doutorado e livros infantis. Estas experiências comprovam que tenho sim algo a dizer e que sou capaz de contar uma história coerente. O fato de ter recebido vídeos de crianças que gostaram dos meus livros, de ter visto como meus amigos gostaram dos meus textos e como eles até citaram e compartilharam o que aprenderam nas newsletters passadas, me ajuda a refutar a ideia de que não tenho nada a acrescentar ou de que o que faço não é bom o suficiente.

Agora que entendo um pouquinho mais sobre o sistema de software que me opera, poderia atualizar essa crença por: “O que eu tenho a oferecer é suficiente porque estou sempre dando o meu melhor para gerar valor através dos meus projetos e da minha escrita”. Toda vez que estou lendo um texto, verificando fatos e fontes, passando horas pesquisando e pensando no que quero falar, eu tenho evidência de que essa minha crença atualizada é verdadeira.

Resumindo: 

1. Identifique uma de suas crenças limitantes ou negativas. (Consulte nossa newsletter para conhecer algumas estratégias para descobrir crenças limitantes).

2. Escolha uma nova crença ou valor essencial para substituir a antiga

3. Procure evidências que apoiem a nova crença que você deseja adotar

4. “Confie” no viés de confirmação: deixe seu cérebro seguir sua orientação e levantar novas evidências para reforçar sua nova crença. Talvez então o "júri" em sua mente chegará à decisão de que ela é verdadeira.

1…

As mídias sociais e a câmara de eco.

Como toda ferramenta, a mídia social é complexa, com o potencial tanto para nos conectar e construir comunidades, quanto para nos dividir, reforçar preconceitos e espalhar desinformação.

O jornalista científico David McRaney, apresentador do Podcast Você não é tão inteligente, acredita que o viés de confirmação é a raiz do motivo pelo qual somos tão atraídos pelas mídias sociais.

Os algoritmos ignoram a oportunidade e a frequência do que nossos amigos postam e, em vez disso, se concentram no que “gostamos”, “compartilhamos” ou “cancelamos” para continuar a alimentar conteúdos semelhantes, criando uma zona de conforto. Embora nos ajudem a descobrir grupos online que valorizam as mesmas coisas que a gente, esses algoritmos criam câmaras de eco onde vivemos alheios a perspectivas diferentes, ouvindo sempre ecos das nossas crenças, certos de que de 'todos' compartilham das nossas opiniões.

Nesses ambientes, desconsideramos os pontos de vista contrastantes, perpetuando um ciclo de confirmação que amplifica as narrativas unilaterais e simplifica demais a compreensão de uma realidade muito mais complexa. Bem vindos ao mundo polarizado!

Se quisermos nutrir um debate saudável e evoluir como sociedade, precisamos lembrar que a história da espécie humana é uma série constante de atualizações de crenças. Desenvolvemos o viés de confirmação como ferramenta de sobrevivência, mas em pleno Século XXI, chegou a hora de uma atualização. Ou a mesma ferramenta que nos trouxe até aqui, pode nos custar nossa chance de evolução futura.

Somos seres inacabados, com a necessidade de atualizar nossas crenças à procura de uma verdade que talvez nunca encontraremos. Esta busca evolutiva traz esperança e, ao mesmo tempo, humildade. A humildade que precisamos demonstrar, na próxima vez que estivermos discutindo no bar, no grupo de Whatsapp da família ou no Instagram, para questionar nossas crenças e até mesmo buscar evidências que possam “desconfirmá-las”. 

As grandes plataformas de mídia social poderiam agir com vigor contra o viés de confirmação, mas estão presas na questão econômica. Se interessam somente em vender nossa atenção para quem quiser pagar, custe o que custar. Tampouco estamos aqui para pregar que deveríamos todos sair das plataformas e perder as coisas positivas que elas podem oferecer, como a criação e a manutenção de conexões que podem complementar nossa vida off-line. Precisamos tomar consciência das manipulações às quais estamos sujeitos e tomar as rédeas das nossas interações, das nossas opiniões e das nossas escolhas.

Os temas mais difíceis podem ser explicados para o homem de raciocínio mais lento, se ele ainda não formulou qualquer idéia sobre eles, mas a coisa mais simples não pode ser esclarecida para o homem mais inteligente, se ele está firmemente convencido de que ele já sabe, sem uma sombra de dúvida, o que é colocado diante dele.

Leon Tolstói

Dando o fora:

Dando o fora nas câmaras de eco:

A Wired traz nesse artigo 5 ideias para furar nossa bolha, escapar da câmara de eco e manter as plataformas se perguntando o que você realmente pensa:

  1. "Curta" tudo: use generosamente os botões e reações de "curtir" para confundir os algoritmos e receber conteúdo variado.

  1. Cultive a mídia de prestígio: Siga publicações respeitáveis de todo o espectro político para evitar notícias falsas e conteúdo polarizador.

  1. Tome cuidado com influencers: Indivíduos com uma diferença significativa entre os seguidores e as pessoas que eles seguem ganham uma influência grande demais. Por isso fique atento ao conteúdo que divulgam e ao impacto que esse conteúdo possa ter sobre você.

  2. Ative o feed cronológico no Instagram: Altere suas configurações de feed para se concentrar nas publicações mais recentes em vez de confiar nos algoritmos da plataforma. Isso ajuda a descobrir contas normalmente desconsideradas e conteúdo diversificado.

    —> Vá para sua “Home”, clique no “Para você”, e depois pressione “Seguindo”. Sua feed estará em ordem cronológica. Mas preste atenção, toda vez que voltar à Home, o algoritmo entra de novo em campo (eles não iam deixar tão fácil!). Se estas instruções não estiverem claras, clique aqui.

  3. Crie espaço para novas vozes: Considere silenciar influencers que só compartilham suas perspectivas. Isso permite que vozes diferentes apareçam em seu feed e ajuda a diminuir o viés de confirmação.

P.S.

Thaís não está com glaucoma. Era só um calázio ;)

Vem dar o fora no Instagram e no Whatsapp!

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