Procrastinação: não deixe para ler amanhã!

Uma nova definição de Procrastinação; O Macaco e o Monstro; Criatividade e Procrastinação; Se jogando na Procrastinação.

Hoje no Dando o Fora: Uma nova definição de Procrastinação; O Macaco e o Monstro; Criatividade e Procrastinação; Se jogando na Procrastinação.

Eu, Thaís, tenho um grande problema. Estou sempre atrasada. Mesmo acordando cedo e me planejando, sempre me atraso. Sinto que programo o que fazer com meu tempo como programo o que fazer com meu salário: gasto tudo na cabeça antes mesmo de ter na conta. Na escola, eu me preparava para os trabalhos mas nunca os terminava antes da hora. Terminei minha tese de mestrado às 6 da manhã, imprimi as 10h30 e entreguei ao meio-dia do dia do prazo final. Gosto da adrenalina. Mas sempre me culpei por achar que estava procrastinando. Até que tive um insight aos 37 anos. 

Uma das coisas que adoro fazer é escrever. Talvez muitos de vocês não saibam, mas adoro escrever histórias infantis (Badabum e A Centopeia não tem onomatopeia são as mais recentes). Para aprender as técnicas e melhorar minha escrita, entrei na curadoria do autor infantil Anderson Novello. Toda vez que recebemos um novo prompt eu fico carregando aquilo comigo. Sempre falo: “Dessa vez vou começar mais cedo” e sempre aparece algo que me impede de sentar e escrever. Mas mesmo não escrevendo, eu fico matutando. Pensando nas histórias que poderia escrever. Na última vez que isso aconteceu eu entrei fundo no clássico auto-julgamento, até que algo lindo aconteceu. Eu estava no trânsito quando Arthur me perguntou alguma coisa que me fez lembrar do prompt da mentoria. E a história se apresentou para mim, clara como uma noite de lua cheia. Quando eu finalmente sentei para escrever (um dia antes da reunião mensal), a história fluiu como se já estivesse prontinha, só esperando para sair da minha cabeça. Foi aí que comecei a pensar, será que procrastinar não é tão ruim assim? Será que minha criatividade nasce, pelo menos em parte, dessa procrastinação?

Antes de chamarmos vocês para Dar o Fora, precisamos dar um spoiler: ao contrário do que pensamos, a procrastinação nem sempre é um problema, dependendo de como você lida com ela. Então, pela primeira vez, vamos mudar o título do nosso chamado.

Ao invés de dar o fora, bora se jogar na procrastinação (moderada)?

Se jogando em…

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Uma nova definição de Procrastinação.

A gente se prometeu que ia terminar essa newsletter na terça-feira. Mas só começamos a escrevê-la na quarta-feira, e agora é a noite do sábado e a gente ainda está na labuta, com vários pontos pendentes. Nós procrastinamos porque somos preguiçosos, ou não sabemos usar bem nosso tempo, ou estamos desmotivados. Certo? Talvez não.

“A procrastinação é um atraso voluntário de um ato pretendido, apesar do conhecimento de que esse atraso pode nos prejudicar", explica Tymothy Pychyl. Ou seja, a procrastinação é uma lacuna entre uma ação e uma intenção.

De forma geral, o cérebro humano “se rende” à procrastinação porque tem preferência pela recompensa imediata à custa da satisfação a longo prazo - algo que somos conhecidos por fazer desde a infância (veja o famoso teste do marshmallow).

O principal insight da pesquisa recente é que "se render para se sentir bem" não tem a ver com força de vontade; tem a ver com gerenciar suas emoções para que elas não sejam sequestradas pela sua voz crítica interna. 

Como Adam Grant explica no seu livro Hidden Potential, quando você procrastina, você não está evitando o esforço. Você está evitando os sentimentos desagradáveis que essa atividade desperta em você. No nosso caso, o medo da folha branca, o medo de não saber direito onde queremos chegar, o medo do tópico da semana não parecer interessante. Até o medo da vulnerabilidade. Do julgamento. Será que o que estamos fazendo aqui é útil? Será que esse é nosso lugar de fala? 

Quando você está procrastinando, você escolhe fazer o que é fácil, divertido ou confortável, ao invés do trabalho duro e cheio de insegurança que tem que ser feito. No nosso caso, preferimos ler e ouvir podcasts, algo que é mais passivo e nos diverte, a sentar para escrever. 

Muitos estudos demonstram que a procrastinação não é um problema de gerenciamento de tempo e sim de emoção. Por exemplo, um estudo analisou dados de 214 estudantes de graduação e demonstrou que emoções negativas, como a culpa e a falta de autocompaixão, foram associadas a níveis mais altos de procrastinação. Essas emoções contribuem para um ciclo autodestrutivo que prejudica a capacidade de concluir tarefas. Por outro lado, o estudo encontrou correlações negativas entre a procrastinação e a atenção plena e a autocompaixão. 

Outro estudo descobriu que a procrastinação está "significativamente associada a pensamentos automáticos negativos em geral, bem como a pensamentos automáticos que refletem a necessidade de ser perfeito". Em ambos os estudos, essa mentalidade altamente autocrítica criou e perpetuou o problema da procrastinação.

Macaco da Gratificação Instantânea: “Vamos assistir a vários vídeos no Youtube sobre criaturas do fundo do mar e depois entrar numa espiral Youtube adentro que nos levará através do Richard Feynman falando sobre a Teoria das Cordas e tereminará com a gente assistindo a entrevistas com a mãe do Justin Bieber!” (Fonte: Waitbywhy.com)


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O Macaco e o Monstro.

Tim Urban, autor do blog Wait but Why, explica com uma mistura de vulnerabilidade, humor, arte e ciência como a mente de um procrastinador funciona. Ele apresenta o conceito do Macaco da Gratificação Instantânea, uma metáfora para a parte do cérebro que busca o prazer imediato e tende a dominar os procrastinadores. 

Com o Macaco no volante, os procrastinadores passam muito tempo no que Tim Urban chama de Playground Sombrio, fazendo atividades agradáveis porém improdutivas, em vez de tarefas importantes. “Só que a diversão que você tem no Playground Sombrio não é realmente divertida porque não é merecida e o ar está cheio de culpa, ansiedade, ódio a si mesmo e pavor”.

Diante dessa situação, como o procrastinador consegue fazer o que quer que seja?

Através de uma outra criatura que põe o Macaco da Gratificação Instantânea pra correr: o "Monstro do Pânico". O Monstro espera até a última hora para aparecer e motivar os procrastinadores a concluir uma tarefa.

Viver dessa forma, nesse purgatório de culpa e pressão, não é legal nem mesmo para aquele procrastinador que de alguma maneira consegue completar suas tarefas. Tim Urban explica o que abdicamos ao viver entre o Macaco da Gratificação e o Monstro do Pânico:

  1. É desagradável: O tempo que o procrastinador perde no Playground Sombrio poderia ter sido gasto em algo mais satisfatório se as coisas tivessem sido feitas em um cronograma mais lógico. O eventual pânico que se instala também é desagradável e aumenta a experiência negativa.

  2. Os procrastinadores acabam se prejudicando, tendo um desempenho abaixo do esperado e ficando aquém de seu potencial. Esse insucesso leva a sentimentos de arrependimento e autodepreciação ao longo do tempo.

  3. Os have-to-dos (obrigações) podem acontecer, mas não os want-to-dos (desejos). Mesmo que o procrastinador esteja no tipo de carreira em que o Monstro do Pânico se apresenta regularmente e que ele consiga se sentir realizado no trabalho, outros aspectos cruciais de uma vida saudável (como entrar em forma, ler mais ou escrever um livro) nunca acontecem porque o Monstro do Pânico normalmente não se envolve com nada além das entregas obrigatórias.

Procrastinação é uma ladra que nos rouba tempo.

Charles Dickens, David Copperfield

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Criatividade: O lado positivo da Procrastinação?

E se a procrastinação não fosse tão ruim assim? E se ela pudesse ser até útil?

É isso que o Adam Grant explica neste vídeo sobre os hábitos surpreendentes de “pensadores originais”, que ele define como pessoas não conformistas que não apenas geram novas ideias, mas também tomam medidas para promovê-las.

Grant compartilha a observação de uma de suas estudantes, de que ela tem suas ideias mais criativas quando está procrastinando. Uma análise de dados de várias empresas revelou que os procrastinadores moderados são 16 por cento mais criativos do que os pré-crastinadores (aqueles que se apressam para entregar tudo cedo) e do que os procrastinadores de última hora. A procrastinação em boa dose permite o pensamento divergente, a contemplação não linear e saltos inesperados, contribuindo para uma maior criatividade.

Esse achado é corroborado pela riquíssima experiência do aclamado produtor musical, artista e escritor Rick Rubin. Em seu magnum opus sobre criatividade, O Ato Criativo: Uma Forma de Ser, Rubin dedica um capítulo para focar nas distrações como fomento criativo no processo de criação artística. Ele descreve a “distração” como sendo “uma das melhores ferramentas disponíveis ao artista, quando usada de forma inteligente… pois quando atingimos um impasse em algum ponto do processo criativo, pode ser útil se distanciar do projeto para criar espaço e deixar que uma solução apareça.” 

Rubin defende que o que ele chama de “distração” é diferente da “procrastinação” que ele identifica como sendo detrimental à nossa habilidade de produzir. Mas se o Rick Rubin e o Adam Grant parassem para conversar sobre o tema, eles provavelmente chegariam num acordo que “Distração” e “Procrastinação moderada” são apenas dois nomes para a mesma forma positiva e inteligente de manejar emoções e tempo para maximizar a criatividade.

Às vezes, se desvincular é a melhor maneira de se envolver.

Rick Rubin, O Ato Criativo

Se Jogando (moderadamente) na Procrastinação (positiva):

  1. Crie métodos para te ajudar a ignorar o Macaco da Gratificação Instantânea. Por exemplo: 

    1. Solicite ajuda externa contando a algum de seus amigos ou familiares sobre a meta que está tentando alcançar e peça a eles que te cobrem. Se precisar, manda um email pra gente e prometemos ficar no seu pé ([email protected]).

    2. Crie uma situação de urgência, um Monstro do Pânico. Por exemplo, se comprometa com uma newsletter semanal dizendo “Nova Newsletter toda segunda feira no seu inbox”. (Por enquanto tem funcionado pra gente!)

    3. Minimize as distrações. Coloque seu celular no Modo Avião, ou desligue a internet. Qualquer coisa vale para dificultar ser desviado ao Playground Sombrio.

    4. Adapte-se. Coloque um lembrete para daqui a um mês: “As coisas melhoraram? Se não melhoraram, mude os métodos”.

       

  2. Aceite ser imperfeito. Abaixe seus padrões para o que conta como progresso e você ficará menos paralisado pelo perfeccionismo.

  3. Transforme seus projetos em tarefas pequenas, claras e gerenciáveis. Lembre-se de que uma casa se constrói tijolo por tijolo. Um livro se escreve página por página. Um hábito se constrói (ou desconstrói) dia após dia

  4. Aumente sua autoconsciência. Cultivar a consciência e a auto-aceitação nos ajuda a reconhecer as razões por trás de nossa procrastinação e a entender nossas motivações. Essa compreensão permite esforços mais intencionais para exercer controle sobre a procrastinação até que as emoções iniciais desapareçam e abram espaço para as emoções mais positivas relacionadas à tarefa.

  5. Encontre seu meio termo. Lembre-se de que a quantidade certa de procrastinação pode torná-lo mais criativo. Isso vale tanto para os procrastinadores como para os pré-crastinadores. Ser rápido para começar, mas lento para terminar, pode impulsionar sua criatividade.

  6. Simplesmente comece de novo. Essas são as quatro palavras mais importantes da meditação da atenção plena e elas também são fundamentais para reduzir a procrastinação.

P.S.

Terminamos a newsletter à meia-noite do sábado para o domingo…Estamos melhorando, newsletter por newsletter.

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