Quanto custa mudar?

A Marmita do Arthur; Ignore seus custos irrecuperáveis; A psicologia por trás dos “sunk costs”; O lado bom dos custos irrecuperáveis.

Hoje no Dando o Fora: A Marmita do Arthur; Ignore seus custos irrecuperáveis; A psicologia por trás dos “sunk costs”; O lado bom dos custos irrecuperáveis.

Esta semana vamos explorar um conceito muito conhecido no mundo da economia: “custos irrecuperáveis” (a tradução menos estranha que achamos para o termo sunk costs). Como este termo se aplica à vida privada e às mudanças que queremos fazer nas nossas vidas?

Highlight da semana:

Aproveitamos a vibe de festas de fim de ano para apresentar ao Arthur os clássicos “Esqueceram de Mim” (disponíveis pela Disney+ e também no Youtube). Enquanto assistíamos ao segundo filme da franquia, no qual Kevin tenta arruinar o plano dos ladrões de roubar dinheiro destinado a um hospital infantil, ficamos pensando sobre a persistência dos dois ladrões. Em nenhum momento, eles consideram desistir de perseguir o menino, mesmo podendo simplesmente fugir com a parte do dinheiro que já tinham conseguido embolsar. Cada golpe do Kevin, ao invés de encorajar um questionamento, só aumenta a persistência dos ladrões, que provavelmente consideram que já apanharam demais para desistir. Ainda bem que nossos queridos ladrões sucumbiram à clássica falácia dos custos irrecuperáveis… senão teríamos filmes bem diferentes, e com certeza menos divertidos.

Bora dar o fora nos custos irrecuperáveis (aka sunk costs)?

Dando o fora em…

3…

A Marmita do Arthur.

Uma das grandes comodidades da escola do Arthur é que possui uma chef que prepara o almoço dos alunos. Na verdade isso não é típico só da escola de Arthur. Uma das coisas positivas no sistema escolar na França é que eles investem muito na educação alimentar das crianças. Lembro ter lido isso no livro de Pamela Druckermann, Crianças francesas não fazem manha, onde ela explica como os menus são bolados e preparados. Os menus têm entrada, prato principal, queijo e sobremesa; tendem a respeitar as frutas e legumes das estações e são muito variados, expondo as crianças a uma grande variedade de sabores e texturas. 

Mesmo que tenha um custo extra, este investimento ainda vale muito a pena para pais que, como nós, têm pouquíssimo tempo para preparar menus variados para os filhos. Recentemente, Arthur começou a pedir para levar almoço de casa. Por um lado, percebemos que ele estava se comparando com um amiguinho que levava uma lunch box (como ele mesmo dizia). Por outro, tem dias que ele realmente não gosta do menu sofisticado da escola francesa. Como bom brasileiro que é, o que ele quer mesmo é arroz e feijão. Como já havíamos quitado a cantina para o ano inteiro, tentei explicar o porquê dos amiguinhos levarem a lunch box e ele comer na escola. Expliquei que os pais do amiguinho eram aposentados e com isso talvez tivessem mais tempo (escrevendo isso, não sinto muito orgulho dessa presunção), expliquei que a mamãe e o papai não tinham tanto tempo para preparar a comida dele todo dia, disse também que já havíamos pagado a comida. Mas ele continuava pedindo. Até que percebi que naquele momento eu estava caindo na falácia dos custos irrecuperáveis. Estava continuando a tomar uma decisão hoje (meu filho deveria comer na escola) baseada em custos com os quais já tínhamos arcado e não poderíamos mais recuperar. Mas dado o que sei hoje (meu filho não gosta da comida) qual a decisão que posso tomar para amanhã? 

Sentamos com Arthur para olhar o cardápio da escola, identificamos os dias que não tinha realmente nada do que ele gostasse e combinamos que nesses dias a gente mandaria sua marmita. Semana passada mandamos a marmita duas vezes. Arthur além de comer tudinho ficou muito feliz (uma externalidade positiva). Mais uma vez percebemos a importância de entender como somos impactados e influenciados pelos nossos vieses cognitivos para que possamos tomar decisões de forma cada vez mais consciente.

2…

Ignore seus custos irrecuperáveis.

A falácia dos custos irrecuperáveis é um viés cognitivo que influencia a tomada de decisões, identificado pelos psicólogos Amos Tversky e Daniel Kahneman em 1972. 

Em seu livro O melhor do mundo: saiba quando insistir e quando desistir, Seth Godin define como irrecuperáveis aqueles custos com os quais já arcamos e os quais não podemos recuperar. Somos vítimas da falácia dos custos irrecuperáveis sempre que continuamos investindo em um negócio ruim somente devido a esforços (custos) anteriores. De acordo com o autor, tomar decisões com base em custos irrecuperáveis é irracional, pois devemos sempre tomar decisões com base em expectativas futuras e não no que já aconteceu.

No seu podcast, Seth Godin dá um exemplo muito bom de sunk cost. Imagine que você tenha conseguido comprar os ultimos dois tickets de um filme que queria muito ver. No caminho ao cinema, você e seu amigo encontram uma amiga que está indo assistir ao show do Hamilton. Ela diz que tem dois tickets sobrando para o show e pergunta se vocês querem ir. Nesse momento, você diz que não pode porque já tinha comprado os tickets para o cinema e não pode mais retorná-los. A verdade é que nesse momento a sua decisão não deveria ser baseada no seu investimento anterior: nesse momento você pode decidir entre ir ao cinema ou ir assistir ao Hamilton. O que vale mais para você hoje? 

Um outro exemplo talvez até mais comum. Imagine que você tenha ido para a faculade com o apoio financeiro de seus pais, tenha estudado medicina e começado a trabalhar na área após a formatura. Entretanto, após 10 anos você percebe que não gosta do seu trabalho e por isso quer mudar de carreira para buscar algo mais alinhado com seus interesses. 

Os sunk costs nessa situação são o tempo e esforço que você investiu na faculdade e na sua carreira além do dinheiro e o esforço dos seus pais. A decisão é dificil porque estamos emocionalmente ligados às decisões que fizemos no passado. Mas precisamos nos lembrar que as informações que tínhamos no passado não eram completas. Aos 18 anos, você não conhecia, não entendia realmente a sua área, o dia a dia da sua profissão. Se você tomar a decisão hoje de sair, quanto tempo seus pais ficariam desapontados? Vale a pena continuar trabalhando na miséria por anos por causa disso?

A escritora Gretchen Rubin, conhecida por seus livros sobre a ciência da felicidade, é um ótimo exemplo de alguém que ignorou custos irrecuperáveis altíssimos (de tempo e dinheiro) ao abandonar uma carreira na advocacia para seguir sua paixão pela escrita. Ao contar sua história no podcast Armchair Expert, Gretchen frisa:

Prefiro fracassar como escritora a ter sucesso como advogada.

Gretchen Rubin

1…

A psicologia por trás dos custos irrecuperáveis.

Cientistas comportamentais e economistas exploraram as razões por trás da falácia dos custos irrecuperáveis. Richard Thaler (autor de Nudge) apresentou inicialmente o conceito, sugerindo que as pessoas estão mais inclinadas a continuar usando um produto ou serviço quando já investiram dinheiro nele. Os cientistas Hal Arkes e Catherine Blumer desenvolveram ainda mais a hipótese de Thaler por meio de experimentos publicados na "Organizational Behavior and Human Decision Processes". Esses experimentos demonstraram como a psicologia dos custos irrecuperáveis influencia significativamente a tomada de decisões, revelando que seu impacto pode ser mais difundido do que previamente imaginado.

Por exemplo, um estudo de questionário pediu aos participantes que imaginassem que haviam reservado acidentalmente duas viagens para esquiar em um fim de semana - uma viagem de US$ 100 para Michigan e outra de US$ 50 para Wisconsin. Embora os pesquisadores tenham dito aos participantes que eles aproveitariam mais a viagem a Wisconsin, a maioria das pessoas ainda disse que iria a Michigan. Depois de fazer algumas contas mentais, os participantes escolheram o curso de ação com um investimento inicial maior, mesmo sabendo que não iriam se divertir tanto.  Isso foi verdade, mesmo quando um professor de economia, em uma aula de economia, distribuiu o mesmo questionário sobre custos irrecuperáveis a alunos de economia. Ou seja, estudar economia não salva ninguém do viés dos custos irrecuperáveis.

Pesquisadores da economia comportamental identificaram pelo menos cinco fatores psicológicos que contribuem para o efeito dos custos irrecuperáveis:

  • Aversão a perdas: As pessoas tendem a evitar perdas com mais intensidade do que buscam ganhos equivalentes. Por exemplo, ganhar 100 reais é uma sensação boa, mas perder 100 reais é horrível. Assim, faremos o possível para evitar perder 100 reais, mesmo que isso signifique sacrificar nossa chance de ganhar mais no futuro. 

  • Efeito de enquadramento: As decisões são influenciadas pelo fato de serem enquadradas de forma positiva ou negativa. A falácia dos custos irrecuperáveis pode ocorrer quando os indivíduos seguem uma decisão para evitar enquadrá-la como um fracasso, mesmo que abandonar a decisão seja a escolha lógica.

  • Otimismo irrealista: os indivíduos podem superestimar suas chances de sucesso e subestimar a probabilidade de fracasso, sem olhar para as evidências. Isso acontece especialmente se tiverem investido dinheiro ou esforço em um determinado projeto.

  • Senso de responsabilidade pessoal: Sentir-se pessoalmente responsável por gastos ou investimentos anteriores aumenta a suscetibilidade à falácia dos custos irrecuperáveis. Aqueles que tomaram a decisão de investir em um projeto acham mais difícil interrompê-lo do que mudar uma decisão tomada por outra pessoa.

  • Desejo de evitar parecer um desperdício: Os tomadores de decisão podem continuar com investimentos ruins devido à relutância em serem vistos como desperdiçadores, tanto por outras pessoas quanto pessoalmente. Imagine que você tenha pedido uma sobremesa muito cara que não te agradou. Muitas vezes temos a tendência de aceitar algo mesmo que não seja ideal, para evitar a percepção de desperdício de dinheiro, tempo ou esforço.

Dando o fora:

O lado bom dos custos irrecuperáveis?

Agora você deve estar expert no conceito dos custos irrecuperáveis e como são nocivos a qualquer mudança que queiramos implementar nas nossas vidas. Mas e se esses custos irrecuperáveis tivessem um lado positivo?

Numa entrevista ao podcast “The Knowledge Project” do Shane Parrish, o Seth Godin - vocês já notaram que a gente adora ele, né? - explica como podemos usar nossos custos irrecuperáveis a nosso favor quando tentamos construir novos hábitos.

No caso do Godin, ele já escreveu em seu blog diário por 7.500 dias consecutivos. Esses posts do blog são um custo irrecuperável. Seria emocionalmente caro para Seth perder um post do blog. Sua sequência no blog é um presente de seu eu anterior. Nos dias em que ele não se sente criativo, Godin utiliza conscientemente seus custos irrecuperáveis para ajudá-lo a sentar e escrever o blog.

MAS… Se ele algum dia perder a alegria em escrever o blog, ele deveria parar. Pois senão se tornará apenas mais uma vítima da falácia dos custos irrecuperáveis já que ele poderia usar sua energia para fazer coisas novas que lhe dêem alegria ao invés de continuar com o blog, só porque é o que fez até então. 

Como evitar cair na falácia dos custos irrecuperáveis:

O simples fato de estar ciente da falácia dos custos irrecuperáveis é um ótimo primeiro passo para evitar cair na armadilha. Quando você entende como funciona a falácia dos custos irrecuperáveis e os diferentes fatores psicológicos que a alimentam, pode identificar se há vieses cognitivos sempre que tomar uma decisão.

Para isso, você precisa se desligar um pouco do seu passado e avaliar quem você é hoje. Tente se perguntar:

  • Quais são meus interesses hoje? Quais são meus pontos fortes? O que parece ser diversão para mim, mas parece trabalho para os outros?

  • O que tenho medo de perder? Como esse medo está me impedindo de avançar? 

  • Como defini fracasso e sucesso para essa situação? Essas definições ainda fazem sentido? 

  • O que eu faria se outra pessoa tivesse na minha situação? Que conselho eu daria a um amigo em minha situação? 

  • Dadas as informações que tenho hoje, se eu tivesse que comprar a mesma coisa hoje, investir na mesma carreira hoje, entrar no mesmo relacionamento hoje, eu o faria?

Resumindo: veja seus custos ou investimentos passados (diplomas, escolhas, experiências) como presentes do seu eu anterior. Para decidir sobre sua vida hoje, reflita: você aceita estes presentes do seu eu passado? Se não quiser, tudo bem! Agradeça, reconheça o esforço que você fez e decida o que você realmente deseja para seu futuro. Ao ignorar (educadamente) nossos investimentos passados, podemos superar obstáculos, mudar nossa cultura e tomar decisões com base nas novas informações que temos hoje.

E, como falamos na semana passada, você sempre pode mudar de ideia.

P.S.

Dica da Thaís:

Música: Uma grande amiga (irmã) me enviou uma música de Dani Black. Estou encantada com suas músicas, principalmente com suas letras do album Bis, que passam muito pelo o que estamos apresentando no Dando o Fora, semana após semana: open your mind.

Dica do Vini:

Ficção: Achei o livro O Tigre Branco, de Aravind Adiga, no airbnb em que fiquei esta semana durante uma viagem de trabalho. Além de ser um livro viciante, a personagem principal é uma bela ilustração de alguém que aprendeu na rua e na vida a dar o fora em seus sunk costs.

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