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Dando o Fora na (Interminável) Busca Pela Felicidade
Vinny e Thaís refletem sobre filosofia estóica no AlmaTalks 2026; Busca pela felicidade ou Escravidão moderna?; Pare de buscar: a felicidade já te achou; Eu sou a parte que falta?; Reflexões e exercícios práticos para definir e se tornar a pessoa que você quer ser.

Hoje no Dando o Fora: Vinny e Thaís refletem sobre filosofia estóica no AlmaTalks 2026; Busca pela felicidade ou Escravidão moderna?; Pare de buscar: a felicidade já te achou; Eu sou a parte que falta?; Reflexões e exercícios práticos para definir e se tornar a pessoa que você quer ser.

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Quem lê o Dando o Fora, ou gosta de conversar conosco sobre filosofia, sabe que sempre voltamos de alguma forma para alguma anedota ou ensinamento da nossa filósofa brasileira favorita: Lúcia Helena Galvão, professora da escola de filosofia prática Nova Acrópole. As palestras e livros da Lúcia Helena nos apoiaram durante todo o período de luta contra o burnout, a partir do qual começamos a reimaginar e reconstruir nossa vida - um processo que nos levou a abandonar nossos empregos, voltar ao Brasil e que continua se desenrolando. Pois como vamos refletir no Dando O Fora de hoje, mesmo que nós não acreditemos numa contínua “busca pela felicidade” à la Declaração de Independência Americana, acreditamos que seja um processo contínuo de questionamento: a forma que levo a minha vida repercute positivamente tanto em mim quanto nas pessoas ao meu redor?
Imaginem então nossa surpresa quando vimos que a Lúcia Helena estaria em Recife em Janeiro de 2026 para uma edição do Alma Talks. Compramos nossos ingressos com quase um ano de antecedência e após o que pareceu ser um piscar de olhos - como a expressão diz: na parentalidade, os dias se arrastam, mas os anos voam - a data finalmente chegou. Foi um dia de aprendizados importantes sobre como viver de forma plena, com aprendizados ao longo do dia.
Nossa primeira lição do dia ocorreu bem antes mesmo de chegarmos ao Teatro dos Guararapes para assistir à uma hora e meia de palestra filosófica. E foi uma reflexão que nos levou de volta a uma das primeiras edições do Dando o Fora, que fala sobre como lidar com “custos irrecuperáveis” (basicamente, ignore-os!). Nosso ingresso do Alma Talks era para o dia inteiro de eventos, com várias palestras à partir das 13h. Isso significaria ficar mais da metade de um dia longe dos nossos filhos, em pleno sábado, e num sábado especial de despedida das férias escolares. Nosso prédio estava todo equipado com brinquedos e guloseimas e nossa saída significaria que os meninos deveriam ficar em casa, sem poder aproveitar a festa. Quer dizer, nem eles, nem a gente. Por mais que gostemos de filosofia - não podemos comparar uma palestra a uma tarde de parquinho regada a algodão doce, não é? Jokes aside, percebemos que naquele momento, o que iria nos trazer mais benefício - a nós e à família como um todo - era ficar “de boa” aproveitando nossa tarde com nossos filhos e amigos, sem compromissos. E tudo isso sem perder aquilo que, desde o princípio, havia nos levado a comprar o ingresso do Alma Talks: a palestra da Lúcia Helena Galvão, que aconteceria somente à noite. Tivemos uma manhã de piscina com os meninos, um almoço tranquilo em família, uma tarde divertida no parquinho e ainda conseguimos chegar na palestra com tempo de conhecermos a filósofa - a quem Thaís ofertou uma cópia do Colecionador de Silêncios. Tudo isso porque conseguimos identificar nossas prioridades (passar tempo de qualidade com nossos filhos E assistir à Lúcia Helena) e ignorar nossos custos irrecuperáveis (ingressos para o dia inteiro de palestras do Alma Talks). Quem disse que filosofia não é algo prático?
Vocês lerão sobre a segunda lição daquele dia - como resignificar a busca pela felicidade - nas sessões abaixo, com vários exemplos informados pelo estoicismo da Lúcia Helena. Mas antes de “Dar o Fora”, vale a pena refletir sobre um terceiro ensinamento, sobre o qual tivemos a oportunidade de refletir e discutir a dois, dentro do carro, enquanto enfrentávamos um engarrafamento para sair do estacionamento do Teatro, após a palestra. Nós estávamos discutindo sobre como era impressionante, em plena sociedade consumista e superficial na qual vivemos, ver os 2.045 lugares do Teatro dos Guararapes lotados para uma palestra de filosofia. Nem tudo está perdido, pensamos, se tantas pessoas se esforçaram para vir até aqui, num sábado, até tarde da noite, para ouvir sobre como podem viver vidas mais éticas e contribuir para um mundo melhor.
Porém, fomos cortados desse pensamento por uma moça num carro que surgiu do nada quase batendo em vários carros para cortar a fila e sair na frente. O que será que aquela pessoa tinha realmente aprendido da palestra da Lúcia Helena? Que inclusive reiterou várias vezes a importância de medir nossa ética pelos pequenos atos corriqueiros. Quantas outras pessoas saíram do Teatro desta mesma forma? A Thaís ainda está otimista, mas eu (Vinny) tendo a crer que muitas daquelas pessoas lotando o Teatro estavam mais para preencher suas máscaras de pessoas educadas que se interessam por filosofia, do que por um comprometimento maior em tornar aqueles ensinamentos em práticas pessoais e diárias, “Pelos seus frutos vos conhecerei” diz Mateus (ou, como diz Lúcia Helena, quais rastros estamos deixando pelo nosso caminho?)
Por outro lado, somos todos invariavelmente inconsistentes em algum momento e meu julgamento não gera nenhum valor positivo. Está aí a raiz do pensamento estóico que a Lúcia Helena tanto preza. Da filosofia antiga à psicologia contemporânea hollywoodiana do Stutz e da Becky Kennedy, tudo indica que somos todas pessoas boas por dentro, tentando fazer nosso melhor e que devemos sempre dar aos atos dos outros nossa interpretação mais generosa.
Ao invés de julgar, devemos continuar nos esforçando para viver a filosofia - com erros e acertos.
Por isso, paramos de pensar naquela espertinha do estacionamento e viemos escrever o Dando o Fora.
Bora dar o fora na busca frenética pela felicidade?
Dando o fora em…
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Busca pela felicidade ou Escravidão moderna?
Um dos momentos mais marcantes da palestra da Lúcia Helena Galvão centrou sobre o que significa a felicidade e como buscá-la numa sociedade moderna que está continuamente reforçando a mensagem de que algo está sempre faltando em nossas vidas e de que a felicidade pode ser encontrada na próxima promoção no trabalho, na compra do tão sonhado [Carro? Apartamento? Celular? Livro? Insira aqui sua ambição de consumo!], no próximo relacionamento, no próximo quilo emagrecido ou até numa nova (ou renovada) religiosidade. Não importa no que buscamos a felicidade, a própria busca implica que falta uma parte em nós. Que não somos suficientes e portanto não podemos ser felizes.
Já falamos no Dando o Fora diversas vezes dos impactos nocivos desta falsa noção de insuficiência - quase sempre mencionando a Brené Brown -, mas foi refrescante ver que desde a Roma Antiga, Epicteto já falava sobre o assunto, exortando a seus discípulos discernimento contra a “verdadeira escravidão”: viver e agir diariamente guiados por coisas, valores e objetivos externos, de convenções sociais às opinioes dos outros sobre nós.
Ontem, porém, mais que os livros e palestras da Brené Brown, o que nos veio ao espírito ao ouvir Lucia Helena discutir a filosofia de Epicteto foi o lindo livro (infantil?) de Shel Silverstein, A Parte Que Falta. A personagem principal de Silverstein, um adorável círculo incompleto parecido com o pacman, passa todo o livro buscando o pedaço que acredita que a completará. Mas na busca frenética pela completude e felicidade, ele acaba perdendo o caminho, a paisagem, a música e tudo o que o tornava único.
Talvez seja essa a parte mais cruel da busca (imposta) pela felicidade: ao procurar a felicidade em algo externo, interminável, acabamos abrindo mão de quem somos (nossa unicidade) e de quem poderíamos de fato nos tornar no caminho.

Leitura recomendada!
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Pare de buscar: a felicidade já te achou.
Se a busca pela felicidade vira uma forma de escravidão, o que sobra quando a gente para de correr atrás dela? Segundo Epicteto, segundo a Lúcia Helena Galvão, e segundo nossa própria experiência meio atrapalhada de viver, sobra algo bem menos glamoroso e bem mais libertador: ação cotidiana alinhada a um porquê.
Felicidade, aqui, não é um estado permanente de euforia, nem um sorriso fixo no rosto. É consequência. Consequência de viver de forma coerente com aquilo que acreditamos ser bom, justo e verdadeiro. É o efeito colateral de fazer, todos os dias, pequenas escolhas que geram valor para nós e para quem cruza o nosso caminho.
Lúcia Helena fala muito disso quando insiste que felicidade é conquista da humanidade. Não no sentido grandioso, mas no sentido simples e exigente de agir como um ser humano inteiro. Alguém que confia que a vida não é um caos aleatório, mas que existe uma ordem, leis universais, e que cabe a nós alinhar nossa vida a elas por meio das nossas próprias balizas internas.
Os gregos chamavam isso de hieros logos, a Palavra Sagrada. Aquilo que só você pode dizer ao mundo. Aquilo que você entrega quando vive de acordo com o que há de mais autêntico em você. Não é sobre profissão, status ou vocação instagramável. É contribuição. É presença. É deixar o mundo um pouco menos confuso depois que você passa por ele. É fazer parte do grande “quebra-cabeça” (como diz Dani Black em sua linda canção) e ser a melhor peça que você pode ser, única, porém alinhada a todas as outras.
O problema é que, se a gente não escolhe conscientemente nossas metas, alguém as escolhe por nós. A sociedade escolhe. A família escolhe. O algoritmo escolhe. Somos animais de metas, como dizia Epicteto. Nossa vida sempre se organiza em torno de algum objetivo. A pergunta não é se teremos metas, mas se elas serão escolhidas com intenção ou absorvidas por distração.
O mal, nesse sentido, não vem de grandes tragédias morais. Ele nasce da negligência. Da preguiça de pensar. Da distração constante que nos impede de definir qual é, afinal, o nosso papel. Quando não sabemos para onde estamos indo, qualquer caminho parece bom. E aí, sem perceber, seguimos vivendo a vida de outra pessoa. Seguimos deixando pegadas na areia.
Parar de buscar felicidade é, muitas vezes, o primeiro passo para começar a viver com sentido.
"O homem vive preocupado em viver muito e não em viver bem, quando na realidade não depende dele o viver muito, mas sim o viver bem"
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Eu sou a parte que falta?
Talvez esta seja uma das perguntas mais desconfortáveis que poderíamos nos auto-direcionar. E se a felicidade não estiver em algo que falta, mas no excesso? Um excesso de ego, por exemplo.
Na filosofia antiga, como a analogia chinesa do Segredo da Flor de Ouro - maravilhosamente estudada e comentada por Carl Jung -, e até em linhas mais contemporâneas de psicologia, a felicidade se afasta do ego e aparece como união com algo maior. Com o que alguns chamam de Deus, outros de Unidade, outros simplesmente de Universo. Aqui em casa, chamamos de “Energia do Universo”. Em todas elas, há um convite parecido: sair um pouco de si mesmo e se reconectar com algo maior.
Quando paramos de viver exclusivamente a partir do “eu”, do “meu”, do “me falta”, algo muda. A vida deixa de ser uma coleção de carências e vira um campo de prática. Quem eu escolho ser hoje? Como eu ajo quando ninguém está olhando? Que tipo de ser humano eu treino ser nos pequenos gestos?
Temos que tomar hoje a decisão de quem queremos ser. Não amanhã. Não quando tudo estiver resolvido. Hoje. Quando aquela pessoa no estacionamento se enfia na minha frente, como vou reagir?
Através dessas pequenas decisões, passamos a entender a felicidade como ações diárias alinhadas aos nossos valores pessoais.
E não, a gente não vai acertar sempre. Vamos errar, escorregar, esquecer, repetir padrões antigos. Mas isso não invalida nossos esforços, como ressaltamos na edição do Dando O Fora sobre hábitos: o que conta não é a perfeição, mas a direção. Pequenas melhoras, com consistência, entre erros e retomadas.
No fundo, o que conecta Epicteto, Lúcia Helena, Becky Kennedy e tanta gente que pensa seriamente sobre viver bem é uma ideia simples e exigente: o ser humano não é perfeito, mas é bom o suficiente, tentando fazer o melhor que pode com as ferramentas que tem.
Como o Dani Black canta tão bem:
Dando o fora na Busca (Interminável) pela Felicidade:
A felicidade não é sobre ter. É sobre ser a melhor versão de si mesmo. O primeiro passo rumo a este objetivo é definir a pessoa que você quer ser.
Como dizia Epicteto, citado por Lúcia Helena durante sua palestra: “Sementes de grandeza precisam de uma imagem para germinar”.
Então no Dando o Fora de hoje, te pedimos que busque um modelo valioso: alguém que pratica os valores nos quais você quer pautar sua vida.
Esse modelo não precisa ser um herói clássico, nem alguém famoso. Pode ser alguém da família, um amigo, um colega de trabalho, um vizinho. Só precisa ser alguém que você conheça um pouquinho mais, além da “máscara” das situações sociais, e cujas escolhas e atitudes te levam a pensar: nossa, é por aí mesmo!
Antes de dormir hoje, pare um pouco e faça estas reflexões sobre o seu modelo:
Nomeie uma ou mais ações suas hoje que te aproximaram do seu modelo de ser humano?
Quais te afastaram?
Nomeie, por escrito ou pelo menos em voz alta, uma ação concreta que você vai tomar amanhã (ou ainda hoje!) que te coloque um passo mais perto desse modelo.
Isso não vai ter tornar alguém perfeito, mas aos poucos isso pode te levar mais próximo de quem você verdadeiramente é. E isso é suficiente.
Gostaria de compartilhar suas reflexões? Manda um email pra gente ou comenta direto no site! Adoraríamos te ler.
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