Dando o Fora na Cultura da Insatisfação

Vini na Bósnia; Quanto é suficiente?; Coragem: você é suficiente; A anti-lista dos desejos; e como dar o fora na insatisfação com gratidão e essencialismo.

Hoje no Dando o Fora: Vini na Bósnia; Quanto é suficiente?; Coragem: você é suficiente; A anti-lista dos desejos; Como dar o fora na insatisfação com gratidão e essencialismo.

Eu (Vini) sempre fui aficionado por história. Enquanto a Thaís cantava Backstreet Boys no chuveiro, do alto dos meus 12 ou 13 anos, e do alto da minha varanda, eu recitava os discursos mais famosos do Winston Churchill, do Charles de Gaulle e do Roosevelt. Lia tudo o que passava pelo caminho sobre as grandes guerras mundiais e ficava imaginando aquelas terras distantes onde se passaram tantos acontecimentos tão incríveis quanto trágicos. 

Um desses lugares era a cidade de Sarajevo, na Bósnia-Herzegovina, onde considera-se ter eclodido a Primeira Guerra Mundial. Mal sabia o Vini pré-adolescente que, menos de dez anos mais tarde, passaria uma boa parte dos seus anos de faculdade entrando e saindo daquela cidade. Em 2011, quando cheguei pela primeira vez à Bósnia, o país ainda se recuperava das guerras étnicas que sucederam a dissolução da Iugoslávia no começo dos anos 90, acabei trabalhando com acampamentos educativos para jovens na minúscula cidade de Sanski Most.

De todos os lugares no mundo, foi na pequena Sanski Most que eu tive minha primeira (e mais concreta) lição sobre o que é suficiente para viver. Alguns dias após minha chegada, o diretor da ONG com a qual trabalhava me convidou para almoçar Ćevapi, um prato típico dos Balkans feito de carne grelhada. "Vou te levar no melhor Ćevapi da cidade," Vahidin falou orgulhoso. Chegando ao restaurante (uma pequena casinha com um toldo projetando sombra sobre mesas na calçada), eles estavam fechados. Estranho, ainda eram 11:00, cedo para o horário de almoço, até mesmo numa região rural. Vahidin parecia decepcionado, mas não surpreso.

"Não é uma questão de fechar cedo, ou tarde”, ele me explicou. “Este restaurante familiar tem uma tradição de não ter horários. O pai dos donos atuais fundou o restaurante nos anos 50 e impôs a regra de só servir um número fixo de pratos de Ćevapi por dia. Abrem bem cedinho, para alimentar os trabalhadores que vão para os campos e fecham assim que vendem o último prato da quota diária. Às vezes às 15:00, às vezes às 11:00. Os filhos continuaram a tradição, e após fechar o restaurante, cada irmão vai cuidar da sua vida. Um é fazendeiro e o outro tem uma lojinha."

Vindo dos EUA, onde estava cursando a faculdade, e onde aquele modelo de negócio é inconcebível, fiquei perplexo. "Como é que o negócio sobrevive?"

"Eles não focam no lucro, só querem ganhar o suficiente para fechar as contas e viver bem. Eu conhecia o velho. Sabedoria de vida ímpar. Acima de tudo, ele queria que os filhos trabalhassem juntos no restaurante, em harmonia, sem brigar por lucros. E conseguiu."

Voltamos um outro dia para comer Ćevapi (no café da manhã, para não arriscar). Há muito já esqueci se a comida era de fato boa, mas nunca esqueci da história do velho do Ćevapi e sua sabedoria sobre como fugir de uma mentalidade de lucro a todo custo para focar no essencial ao desenhar sua vida, educar sua família e organizar seu negócio. 

O Dando o Fora de hoje é um convite para remover os "horários fixos" das nossas vidas e trocar uma busca implacável para maximizar o que temos por uma expedição rumo à essência de quem somos. Pelo caminho, arriscamos descobrir que já temos o suficiente para viver plenamente.

Bora dar o fora na cultura da insatisfação?

Dando o fora em…

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Quanto é suficiente?

Quando o Vini me contou pela primeira vez a história do velho do Ćevapi, eu (Thaís) fiquei emocionada. Somos constantemente bombardeados por mensagens de que o que temos não é suficiente e esta anedota do fundo dos Balkans representa a possibilidade de realizar algo que sempre achei ser puramente utópico: almejar o suficiente.

Num ensaio de 1930, um dos maiores economistas da história, John Maynard Keynes, argumentou que, em 100 anos (isto é, por volta de 2030), as sociedades ocidentais teriam obtido tanta riqueza que ninguém precisaria trabalhar mais do que 3 horas por dia. O resto do tempo poderia ser enfim dedicado a um lazer ativo, no sentido de tempo livre para usar como quisermos, em oposição ao ócio. A ideia de Keynes de que o lazer poderia ser uma opção para todos, não apenas para uma minoria aristocrática, era inovadora. E para ele, o capitalismo era o meio - ainda que bastante desagradável - para esse fim.

Keynes tinha um pouco de razão: as sociedades ocidentais estão mais ricas do que nunca. Mas, diferentemente do que ele havia previsto, trabalhamos mais do que nunca. Segundo a Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), aproximadamente 30% dos trabalhadores brasileiros sofrem com a síndrome de burnout, fazendo do Brasil o segundo país com mais casos diagnosticados, apenas atrás do Japão. 

Mas por que a previsão de Keynes estava tão errada? Isso é o que exploram o historiador econômico Robert Skidelsky e seu filho Edward, no livro Quanto é suficente?. De acordo com os autores, há três problemas principais:

  1. A riqueza acumulada nas últimas décadas está fortemente concentrada nas mãos de poucos, enquanto as massas ainda precisam trabalhar 40 horas ou mais por semana apenas para sobreviver. 

  2. Mesmo aqueles que podem viver uma vida de luxo e lazer, muitas vezes ainda trabalham mais de 40 horas por semana em busca de mais riqueza. 

  3. As inovações tecnológicas do século XX, destinadas à automação do trabalho, não conseguiram beneficiar a todos, criando um sistema que se apoia sobre uma grande força de trabalho de prestadores de serviços mal remunerados.

Mas podemos acrescentar um problema ainda maior: Keynes baseou sua teoria na ideia de que existe um patamar em que o homem se contenta com o “suficiente”. Entretanto, quando jogamos o conceito de "suficiente" pela janela, não há nada que nos limite no acúmulo de riqueza (ou pelo menos no acúmulo de trabalho). Por que parar com um carro, se você pode ter dois, três, quatro, cinco? Ou uma casa de campo? Ou o último modelo do iPhone?

Enraizado no tédio e na relatividade dos desejos, o capitalismo alimenta esse ciclo perpétuo ao promover a produção e o consumo constantes de bens muitas vezes supérfluos, nos induzindo a trabalhar mais do que precisamos para comprar aquilo de que não precisamos (#ostentação).

Procurando inspiração no passado, os autores propõem como alternativa a perspectiva Aristotélica da vida boa, ou euzen, como um estado de perfeição (telos) e objetivo para nossa sociedade moderna. Mas como o conceito da boa vida da Grécia Antiga se traduz nos dias de hoje?

Robert e Edward Skidelsky explicam que os bens básicos para uma boa vida têm quatro principais características:

  1. Eles são universais: não são exclusivos de partes específicas do mundo e perduraram por diferentes culturas ao longo dos milênios. 

  2. São fins e não meios para adquirir outros bens: Por exemplo, formar a comunidade do Dando o Fora é uma coisa por si só que vale a pena buscar e não é apenas a soma de indivíduos egoístas.

  3. São auto-suficientes: Amizades profundas, por exemplo, não fazem parte apenas de outra interação social, mas são um bem em si só.

  4. E são indispensáveis: Como sua saúde física, esses bens causariam sérios danos se fossem perdidos.

Para darmos o fora na insatisfação crônica, os autores recomendam que o progresso da sociedade seja medido não pelos parâmetros tradicionais de crescimento ou renda per capita, mas pelos sete elementos da boa vida: saúde, segurança, respeito, auto-determinação, harmonia com a natureza, amizade e lazer ativo. Esses elementos, fundamentais para uma vida plena, deveriam formar a base da busca contemporânea pela felicidade.

A grande pergunta é: como chegamos lá? Para os Skidelsky, o Estado deveria implementar políticas públicas e tributárias para ajudar seus cidadãos a criarem uma boa vida: uma renda básica, diminuir a pressão para o consumo (por exemplo através de impostos progressivos para diminuir o consumo, com níveis de tributação variando de acordo com a necessidade dos itens); e uma maior regularização da publicidade e marketing.

Essas mudanças, no entanto, são apenas parte da solução. E devemos esperar que sejam radicalmente resistidas pelas elites “que têm muito e querem ainda mais”. Em última análise, cabe a cada um de nós decidir se queremos continuar uma vida movida pela insatisfação ou fazer as mudanças necessárias para alcançar a boa vida.

O homem moderno vive sob a ilusão de que sabe o que quer, quando na verdade ele deseja aquilo que se espera que ele queira.”

Erich Fromm

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Coragem: você é suficiente!

Da mesma forma que estamos sendo bombardeados com mensagens que nos dizem que o que temos não é suficiente, a mídia dos países super industrializados também nos manda uma outra mensagem importantíssima: nós não somos suficientes. 

Muitas vezes, focamos no que nos falta em vez de apreciar quem já somos. Em "A coragem de ser imperfeito", a Brené Brown argumenta que vivemos em uma cultura de escassez, uma "cultura do nunca suficiente," em que todos têm a percepção de uma falta constante. Tudo, a segurança, o amor, o dinheiro e os recursos, parece restrito ou escasso.  Começamos o dia pensando que não dormimos o suficiente, passamos o dia achando que não temos tempo suficiente e, ao dormir, sentimos que não realizamos tarefas suficientes. Seja o que for que tenhamos, façamos ou consigamos, nunca é o bastante.

Ao interagirmos com os outros no dia-a-dia, percebemos tudo o que nos falta: beleza, inteligência, talento, sorte, dinheiro, paz, criatividade, entre outros. A palavra-chave aqui é percepção: essa escassez não é real. Sim, há um milhão de coisas que não temos. Mas há um milhão de coisas que temos. Se conseguirmos enxergar nossa vida com as lentes certas, perceberemos como já temos e somos mais do que podemos pedir ou imaginar.

O homem sábio é aquele que não se entristece com as coisas que não tem, mas rejubila-se com as que tem.”

Epictetus

De acordo com Brené, os três componentes da escassez são: a vergonha, a comparação e o desinteresse. Para transformar a escassez, precisamos ousar. Precisamos ousar ser quem somos. Não precisamos emagrecer, ganhar mais, ou virar diretor de empresa para sermos aceitos, para obter a boa vida. Para nossos filhos, pais e amigos - aqueles que estão na arena ousando conosco - nós já somos suficientes. Ao invés de ficarmos sentados nas arquibancadas, lançando julgamentos e conselhos, filosofando sobre a vida boa que nunca teremos, precisamos ousar agir e permitir que os outros nos vejam. Precisamos ter a coragem de definir nossos valores, alinhar nossas decisões a eles, e desenhar a vida que queremos ter.

Insatisfação positiva?

Mas claro, devemos ficar sempre abertos a mudar de ideia. Até mesmo sobre algo aparentemente tão nocivo quanto nossa cultura da insatisfação. Será que ela é de todo ruim? Em Por que fazemos o que fazemos?, Mario Sergio Cortella fala que somos todos "seres de insatisfação", utilizando o conceito do filósofo alemão Martin Heidegger de que é através da sensação de "angústia" ou "oco interno" do ser humano que criamos possibilidades para criar. 

Para Heidegger e Cortella, nossa insatisfação crônica toma um viés positivo como origem da nossa liberdade de ser. Mas a insatisfação positiva tem limites: Cortella alerta sobre como nossa insatisfação nata é deturpada pela indústria do entretenimento e pela sociedade de consumo, que criam as mais diversas distrações, assim como leis, moda, fantasias, tecnologias, medicamentos, etc, prometendo satisfação imediata ao ser humano e preenchimento da nossa sensação de vazio existencial.

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A anti-lista dos desejos.

Neste episódio do podcast do Tim Ferriss, conhecemos o professor de Harvard Arthur C. Brooks e seu conceito transformador de satisfação pessoal para além da busca por "mais". Brooks propõe que o sucesso e a satisfação podem ser calculados de maneira muito simples:

Brooks sugere que a vida que levamos hoje, sempre buscando "mais e mais", acumulando objetivos e metas, dos mais simples aos mais ambiciosos, nos transforma em pessoas cronicamente insatisfeitas. 

Para lutar contra a busca interminável pela "felicidade", símbolo de uma cultura capitalista onde domina o sentimento de escassez (interna e externa), Brooks apresenta o conceito inovador da anti-lista dos desejos (tradução livre de “reverse bucket list"). 

É um conceito simples de aplicar, como explica o próprio Brooks: 

"Faça uma lista de todos os seus desejos e anseios mundanos… O dinheiro que você deseja, as coisas que você deseja, a satisfação que viria momentaneamente da admiração de estranhos, os seguidores do Instagram... qualquer coisa que você ache que o tornaria uma pessoa mais feliz…. Escreva seus desejos - e então risque-os. Livre-se de cada um, como se estivesse se livrando de um fardo." 

O conceito não pede que abdiquemos de ter ambições. O ponto é que ao riscar no papel (e mentalmente) cada desejo, nos libertamos do peso e das cobranças que eles impõem em nossa vida. Podemos conseguir ou não realizar tudo aquilo. Não importa.

Brooks explica que o conceito da anti-lista de desejos tem base neurológica:

"O ponto é que você não quer que seu sistema límbico governe suas ambições. O prazer vem do sistema límbico do seu cérebro. Ele funciona rápido, já que é onde você experimenta surtos de dopamina, embora não leve a um prazer duradouro. Seu córtex pré-frontal, no entanto, opera de maneira muito mais lenta e lógica—Você quer que seu córtex pré-frontal lhe diga: 'Esse [desejo] pode acontecer ou não, mas não vou amarrar minha felicidade a receber essa recompensa específica.' Dizer isso é enormemente libertador."

A anti-lista do Vini neste momento está assim:

A Anti-lista de Desejos do Vini

Dando o fora na cultura da insatisfação:

Nosso sentimento de insatisfação crônica está enraizado tanto na percepção cultural de escassez quanto nos produtos e serviços que a sociedade de consumo tenta nos vender todos os dias como essenciais para uma vida plena. Dar o fora numa cultura inteira não é fácil. Mas seguindo o conselho da Glinda, a Bruxa Boa do Mágico de Oz, é sempre bom começar pelo começo: agindo contra a percepção de escassez e a força do consumismo.

Gratidão x Escassez

Uma boa maneira de dar o Dando o Fora no sentimento de escassez é estimulando a gratidão sobre o que já temos ou recebemos diariamente. Recomendamos um dos cinco métodos de Stutz chamado o Fluxo de Gratidão:

  1. Identifique o que lhe traz gratidão: Silenciosamente, enumere para si mesmo coisas específicas em sua vida pelas quais você é grato, especialmente itens que normalmente daria como garantidos. Vá devagar e sinta a gratidão por cada item. Não use os mesmos itens repetidamente - esforce-se por novos.

  1. Sinta a sensação de gratidão: Após cerca de 30 segundos, pare de pensar e concentre-se na sensação física de gratidão. Você a sentirá vindo diretamente do seu coração. Esta energia que você sente é o Fluxo de Gratidão.

  1. Conecte-se à fonte: Em meio ao Fluxo de Gratidão, você sentirá uma presença avassaladora se aproximando de você, cheia de um poder de doação infinita. Você fez uma conexão com a Fonte universal de energia de onde emana toda a nossa confiança e positividade.

Pode parecer clichê, mas realmente funciona.

Essencialismo x Consumismo

Para combater as pressões da sociedade de consumo, nada melhor do que tentar o desafio do essencialismo. Dividimos o desafio em duas partes:

  1. Valores essenciais: se já não tiver feito, faça o exercício de identificação dos valores essenciais que já descrevemos no Dando o Fora. Ao definir seus valores essenciais, você poderá alinhar toda e qualquer decisão de consumo à resposta a esta pergunta: Consumir este produto ou serviço me aproxima ou me distancia dos meus valores? Não deixe que o marketing tome suas decisões de consumo por você.

  1. Limpe sua vida: em seu livro Essencialismo: a Disciplinada Busca por Menos, Greg McKeown nos convida a fazer um desafio de 21 dias para achar o essencial em várias áreas da nossa vida. Caso você não possua o livro, nem possa comprá-lo, nós recomendamos este desafio minimalista de 30 dias para te ajudar a se livrar de todos aqueles produtos não essenciais que enchem sua casa e sua vida. Nós não conseguimos levar o desafio minimalista até o trigésimo dia, mas no processo nos livramos de mais de 200 objetos.

P.S.

Ontem à noite, logo após terminar a newsletter, assistimos com Arthur a versão original do clássico de 1939 "O Mágico de Oz" e percebemos que o tema do filme nada mais é que o tema deste Dando o Fora: o homem de lata, o leão e o espantalho todos acreditam que lhes falta algo de suma importância para serem felizes (um coração, coragem, um cérebro). Mas ao longo do filme, ao seguirmos os planos inteligentes do espantalho, a bondade do homem de lata e o heroísmo do leão medroso, percebemos que eles já têm tudo o que buscam. A história clássica da pequena Dorothy tomou um novo significado para nossa família: uma aventura sobre a coragem de ser imperfeito e de se descobrir suficiente ao lado daqueles que seguem conosco na arena, construindo, à medida que avançamos, nossa própria estrada de tijolos amarelos.

Dorothy e seus amigos rumo à Cidade de Esmeralda em O Mágico de Oz. Bora construir nossa estrada de tijolos amarelos?  ©Insomnia Cured

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