Estereótipos e preconceito: Dando o fora na heurística da representatividade

Thaís e os estereótipos; O que é a Heurística da Representatividade; Você é imune aos preconceitos?; Desconversando o preconceito; Como dar o fora na heurística da representatividade e seus estereótipos.

Em 2011, quando eu (Thaís) cursava engenharia biomédica na Alemanha, acompanhei um grupo de colegas numa “excursão” à MEDICA, uma feira anual de engenharia de medicina em Düsseldorf.

Éramos 6 ou 7 amigas, todas estrangeiras como eu, de países como o Irã, Iraque, Turquia, e Líbano. Começamos a passear pela feira e ficamos muito animadas com os diferentes produtos à mostra. Era a primeira vez que estávamos vendo de perto os tipos de produtos sobre os quais havíamos estudado e com os quais sonhávamos trabalhar num futuro não tão distante. 

Esmagado em meio às máquinas de radioterapia, ressonância magnética e tomografia, havia um pequeno stand que me chamou a atenção. No meio de todos aqueles equipamentos extremamente caros e complicados, o stand exibia simplesmente uma mesa com uma cadeira por cima. Parei para perguntar sobre o produto. Uma alemã bem simpática começou a nos explicar que os cirurgiões precisam operar seus pacientes de pé ao lado da mesa cirúrgica, muitas vezes em posições nada ergonômicas, o que poderia levar a resultados abaixo do ideal. A ideia do produto era colocar o cirurgião sentado em uma cadeira por cima do paciente, com um apoio no peito, que poderia ser inclinada para o cirurgião poder operar em uma posição otimizada. 

Naquele tempo, achei a ideia simples e promissora, mas a razão daquele stand estar gravado até hoje na minha memória não tem nada a ver com o produto. O que realmente ficou comigo daquele dia foi a força de uma frase. Quando um colega da vendedora simpática se aproximou, ela simplesmente olhou para ele e disse, com um sorriso espontâneo: “Estou tentando explicar para essas enfermeiras como o nosso produto é importante”. Oi? “Não lembro de ter falado que a gente era enfermeira”, eu disse. “Ah, desculpe, vocês têm a aparência de enfermeiras. Então, eu presumi.”

Em Inglês, existe uma frase: “You know what happens when you assume? You make an ass of u and me”. Quando você presume algo, nós dois perdemos a oportunidade de realmente aprender e crescer. Então por que a alemã simpática presumiu que éramos enfermeiras? 

Após a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha incentivou a imigração de trabalhadores estrangeiros (em sua grande maioria turca) para suprir a demanda por mão de obra industrial. Muitos trabalhadores migrantes acabaram ficando, dando luz a uma segunda geração (já alemã) que, em parte e graças à qualidade do sistema de educação, conseguiu seguir carreiras diferentes das dos seus pais.

A mulher errou ao se basear no estereótipo, ou visão de mundo, que era muito mais provável que um grupo de estrangeiras naquela região, interessadas na área de saúde, fossem enfermeiras (na Alemanha, Enfermagem não requer ensino superior), do que médicas ou engenheiras. Ela simplesmente usou um atalho de raciocínio, algo que os cientistas e economistas chamam de "heurística da representatividade". Não podemos apontar dedos: quem nunca julgou pessoas ou situações com base em estereótipos, que jogue a primeira pedra! Nossos cérebros desenvolveram as heurísticas para facilitar a tomada de decisões e permitir que evoluíssemos como espécie e sociedade. Mas como tudo na vida, devemos usar nossas heurísticas com moderação, pois estes atalhos de raciocínio tendem a nos levar a grandes e perigosos erros. 

O erro cognitivo da nossa alemã simpática de categorizar pessoas pelas aparências, etnias e outras características, pode facilmente se transformar em preconceito e contribuir para uma discriminação sistêmica. Ao focar somente no que parecíamos ser, aquela vendedora perdeu a oportunidade de conhecer quem realmente éramos ou em quem ainda poderíamos nos tornar. Naquele dia, aquele comentário me irritou, mas sou grata pela lição que perdura até hoje: mesmo sem querer, estamos todos suscetíveis a estereótipos e preconceito.

Bora dar o fora na heurística da representatividade e seus estereótipos?

Dando o fora em…

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O que é a heurística da representatividade e por que ela acontece?

A heurística da representatividade é um atalho mental em que as pessoas se baseiam em semelhanças e estereótipos para julgar as características de uma pessoa, objeto ou situação.

Por exemplo: o Vini acha que o TikTok é uma plataforma repleta de conteúdo irrelevante. Usando a heurística da representatividade, ele julgará um vídeo que esteja publicado no TikTok como irrelevante (sem se dar ao trabalho de assistir e julgar o conteúdo pelos seus próprios méritos).

Como vimos nessa newsletter sobre vieses cognitivos, a vantagem desta heurística é que ela reduz o tempo e o esforço necessários para fazer julgamentos e tomar decisões razoavelmente boas, mas ao custo de ocasionalmente nos desviar do caminho. No caso do Vini, ele perde a chance de conhecer conteúdos interessantes pelo simples fato de estarem no TikTok.

“É um pássaro? É um avião? Não, é o super-homem!”

Nossa percepção de pessoas, animais e objetos depende muito da categorização: como agrupar coisas semelhantes. Dentro de cada categoria existe um protótipo: o membro "médio" que melhor representa a categoria como um todo. Quando usamos a heurística da representatividade, comparamos algo com o protótipo de nossa categoria e, se forem semelhantes, acreditamos instintivamente que deve haver uma conexão.

A teoria do protótipo da psicóloga Eleanor Rosch (1974) desafiou a visão tradicional de categorias do tipo tudo ou nada. Rosch reconheceu que os membros de uma categoria podem variar significativamente e que alguns são percebidos como mais representativos ou "melhores" membros da categoria do que outros. Por exemplo, ao pensar na categoria "pássaros", um pombo é um membro mais prototípico do que um pinguim. No entanto, ambos são pássaros.

Embora categorizar nos ajude a interpretar situações e tomar decisões rapidamente, temos dois desafios

  1. Podemos nos esquecer que nem todo membro de um grupo é igual aos outros. Indivíduos têm suas singularidades, que podem não ter nada a ver com seus grupos ou "categorias". Alguém que não gosta de futebol, nem dança bem, nem curte carnaval ou festanças não é prototípico da categoria "brasileiro", mas o passaporte do Vini prova o contrário.

  2. Muitas categorias carregam associações incorretas, perpetuando estereótipos, especialmente em relação a grupos minoritários. Isso significa que, depois de sabermos a que categoria uma pessoa pertence, é mais provável que façamos suposições erradas sobre ela do que corretas. No exterior, mulheres brasileiras sofrem com a falsa ideia de serem "fáceis".

Como a maioria das heurísticas, a heurística da representatividade pode ter consequências positivas e negativas, dependendo da situação específica. De acordo com esse estudo, o motivo para nos concentrarmos nos vieses em vez de sucessos, é que os vieses geralmente revelam onde tendemos a falhar, para que possamos ficar mais atentos e evitar atalhos quando as decisões puderem impactar não só nossas vidas, mas principalmente a vida de outras pessoas.

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Você é imune à heurística da representatividade? Eu não.

Vamos fazer um teste? 

Linda tem 31 anos, é solteira, espontânea e muito inteligente. Ela se formou em filosofia. Quando estudante, ela se preocupava profundamente com questões de discriminação e justiça social e também participava de atividades antinucleares.  O que é mais provável sobre Linda hoje?

  1. Linda trabalha como caixa de banco.

  2. Linda trabalha como caixa de banco e participa ativamente do movimento feminista.

Antes de prosseguir com a leitura, tome 5 segundos para pensar e escolher sua opção.

Baseado na descrição de Linda, a maioria das pessoas acredita que é mais provável que Linda seja uma caixa de banco feminista do que uma caixa de banco. Quando Tversky e Kahneman (1982) fizeram essa pergunta a 86 pessoas, quase 9 de cada 10 entrevistados responderam dessa forma. Se você pensar bem, essa resposta viola uma regra fundamental de

Probabilidade: a probabilidade de dois eventos ocorrerem ao mesmo tempo (Linda ser "caixa de banco" e "feminista") sempre será menor do que a probabilidade de um dos eventos ocorrer sozinho (Linda ser somente "caixa de banco"). Mas, quando ouvimos a história da juventude de Linda, colocamos a personagem numa categoria, digamos, de "ativista" que nos leva a crer apesar de todas as provas matemáticas possíveis que Linda não pode ser "simplesmente” uma caixa de banco.

O "Problema da Linda" ficou conhecido como a "falácia da conjunção".

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Ainda há esperança: Desensinando o preconceito.

O maior e mais preocupante problema dos estereótipos gerados pela heurística da representatividade é a discriminação sistêmica. Por exemplo, todos os dias somos lembrados de como esses preconceitos, quando levados ao extremo, podem resultar em maior violência contra pessoas negras. De acordo com o Atlas da Violência, a cada 10 pessoas assassinadas no Brasil, 8 são negras. As mortes de negros causadas por policiais, e questões mais amplas de discriminação racial, brutalidade policial e desigualdade racial no sistema de justiça criminal dos Estados Unidos, Brasil e outros países desencadearam movimentos internacionais como o Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). 

O racismo não é uma questão recente, mas ela continua muito atual. Em meio a tantas notícias de terror e ódio, com governos e grupos de extrema direita ressurgindo, será que ainda existe esperança?

Estudamos a história emocionante de um pianista estadunidense que acredita fervorosamente que sim.

Daryl Davis: Pianista da Esperança

Quando Daryl tinha apenas dez anos, teve sua primeira experiência de racismo: “Eu estava em um grupo escoteiro e estávamos em um desfile quando as pessoas começaram a jogar pedras e coisas em mim. Não entendi por que as pessoas fariam isso. Naquele dia, Daryl formulou uma pergunta que carregaria consigo por muitas décadas:  “Como você pode me odiar quando nem me conhece?”

É claro que existem pessoas que vão para o túmulo sendo racistas e repletas de ódio. Mas acredito que as pessoas possam mudar… Elas não nasceram com essas visões. Foram ensinadas - e podem ser 'desensinadas'. Provei que isso é possível.

Daryl Davis

Muitos anos depois, após uma apresentação do seu grupo musical onde era o único integrante negro, um homem branco o tirou de lado e disse: “Esta é a primeira vez que ouvi um negro tocar piano como Jerry Lee Lewis. [...] Eu nunca ouvi nenhum homem negro tocar assim, exceto você”. Davis não se sentiu ofendido. Em vez disso, tentou explicar ao homem que Jerry Lee Lewis havia aprendido a tocar com os negros. O homem não acreditou, mas convidou o músico para tomar um drink.

"Sabe, essa é a primeira vez que me sentei e tomei uma bebida com um homem negro”, disse-lhe o homem. “Sou membro da Ku Klux Klan," admitiu o americano, mostrando seu cartão de membro. Daryl começou a rir, quase sem acreditar. O Membro da KKK foi muito amigável com Daryl, pedindo que ele entrasse em contato toda vez que fosse tocar naquele mesmo bar. Para Daryl, o fato de um Klansman e um negro poderem sentar-se à mesma mesa e curtir a mesma música foi uma semente plantada. Desde então, Daryl vem plantando e nutrindo centenas de outras sementes.  

Sempre buscando uma resposta ao grande questionamento de sua infância, Daryl começou a se envolver cada vez mais com a organização de supremacia branca, participando de seus comícios e se tornando amigo íntimo de alguns dos membros. Com cada amizade que florescia, os Klansmen começaram a se questionar e perceber que seu ódio poderia estar equivocado. Através de perguntas, curiosidade, diálogos e muito respeito, Davis conseguiu ajudar mais de 200 Klansmen a abandonarem seus mantos e máscaras de ódio. 

Se você passar cinco minutos com seu pior inimigo - não precisa ser sobre raça, pode ser sobre qualquer coisa... você descobrirá que ambos têm algo em comum. À medida que se baseia nesses pontos em comum, você está formando um relacionamento e, à medida que se baseia nesse relacionamento, está formando uma amizade. Era isso que acontecia. Eu não converti ninguém. Eles viram a luz e se converteram.

Daryl Davis

Talvez Daryl tenha razão: a amizade genuína, promovida por meio do diálogo aberto e do respeito mútuo, pode servir como uma ferramenta poderosa não apenas para lidar com a discriminação explícita, mas também para corrigir preconceitos inconscientes. Para ele, a mensagem profunda do movimento "Black Lives Matter" ressoa porque enfatiza o reconhecimento crucial da humanidade nos outros. De acordo com Davis, o combate ao racismo depende da nossa disposição a ouvir uns aos outros

Para escutar mais sobre essa fascinante história e linda lição de vida, sugerimos esse podcast, esse TedTalk, e o próprio livro de Davis

Vale a pena lembrar que mesmo que essa história seja emocionante e tenha dado muito certo, não deveria ser dos negros (ou de qualquer grupo de minoria) o desafio de lutar contra o preconceito. Todos nós compartilhamos esta grande responsabilidade. Por isso precisamos dedicar nosso tempo e energia para aprender como podemos dar o fora na heurística da representatividade, nos estereótipos e, principalmente, no preconceito!

Dando o fora:

Dando o fora na heurística da representatividade: cada um tem a sua!

O dando o fora de hoje é baseado num método chamado quebra de hábito prejudicial (prejudice habit-breaking) desenvolvido pela Universidade de Wisconsin. Nele, os participantes não só aprenderam o que é preconceito implícito, como ele é medido e como prejudica as mulheres e as pessoas de cor, mas também tiveram que fazer Testes de Associação Implícita (em português). Os resultados destes testes demonstram como todos nós perpetuamos preconceitos inconscientes e servem como incentivo de mudança. Thaís fez o teste sobre gênero e carreira e descobriu que tem um forte viés em associar homens a conceitos de carreira profissional e mulheres a conceitos de família. Quem diria, né?

Uma vez conscientes dos nossos preconceitos individuais, através da metodologia da quebra de hábito prejudicial, podemos nos treinar a usar ferramentas para dar o fora na heurística da representatividade:

  1. Lembre-se que você pode sim mudar. Fuja da famosa Síndrome de Gabriela “eu nasci assim, eu cresci assim”. 

  2. Supere a negação: O preconceito existe mesmo quando as pessoas o negam. Um estudo de empresas americanas encontrou evidências de discriminação contra candidatos negros na contratação, apesar de os gerentes alegarem não terem preferência racial. Reconhecer o preconceito é fundamental para lidar com ele.

  3. Reflita sobre exemplos contrários aos estereótipos. Lembre-se das nossas dicas baseadas no Sherlock Holmes!

  4. Considere a perspectiva dos outros: O famoso "se colocar nos sapatos do outro" tem efeitos positivos não só em nossos relacionamentos mas também no nosso próprio bem-estar. Sabendo que somos muito mal programados para isso, como mostra Malcolm Gladwell em Falando com Estranhos.

  5. Colete informações mais individualizadas sobre as pessoas. Faça mais perguntas e menos suposições. Lembre-se de se comportar mais como cientista.

  6. Cultive sua curiosidade e interaja com diferentes tipos de pessoas. Como vimos com a história de Daryl, o diálogo e interesse genuíno podem reduzir o preconceito e o comportamento discriminatório, segundo esta pesquisa.

  7. Peça feedback. Muitas vezes não temos noção dos nossos próprios preconceitos, nem de como eles afetam os outros. Uma boa estratégia pode ser pedir ajuda a pessoas de confiança na identificação dos nossos vieses.

Os estudos da Universidade de Wisconsin mostraram que essas ferramentas são realmente eficazes. Só há uma maneira de descobrir… Tentando todos os dias e lembrando que somos todos work in progress (obras em andamento).

P.S.

Saber que a heurística da representatividade existe e que é tão comum nos torna mais cientes dos nossos pontos cegos. Ao procurar por mais exemplos pessoais, me lembrei de um episódio onde não fui vítima, mas sim autora do erro. Queremos desenvolver um relacionamento de confiança e de honestidade com vocês, então achei importante contar sobre um episódio onde entrei fundo no viés da representatividade.

Apenas três anos depois do que tinha acontecido comigo na feira de engenharia, já quando eu estudava em Oxford, fui pega pela minha própria sombra. Pietro, o jardineiro e camareiro do meu college, sabia que eu adorava ler. Um dia ele me abordou ao me ver lendo os Irmãos Karamazov. “Nossa Thaís, esse é meu livro preferido”, ele disse. Eu fiquei sem saber o que dizer. Por um mili-segundo, aquela frase não fazia sentido. Especialmente em Oxford, onde existe uma separação milenar entre town (a população não acadêmica da "cidade") e gown (“toga”, representando a comunidade universitária), como podia o jardineiro amar um livro tão “intelectual” como Irmãos Karamazov? Esquecendo do preconceito curricular que minha própria mãe e eu sofremos, eu me baseei numa falsa categorização para formar um julgamento. Não sei se Pietro percebeu, mas eu logo lembrei da mulher da feira de Düsseldorf, e perguntei: “Jura? Me conta por que você gosta do livro.” Ao me explicar sua interpretação de um dos capítulos mais importantes do livro, Pietro me deu não só uma aula sobre Dostoiévski mas, além de tudo, sobre humildade.

Tento carregar esta humildade comigo toda vez que me pego pegando atalhos - físicos ou cognitivos - para o caminho errado.

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