Dando o Fora na Mentalidade Fixa

Thaís contra o Golem; Mentalidade fixa vs mentalidade de crescimento; Quando o essencialismo encontra a mentalidade de crescimento; O efeito Golem; Dicas práticas para dar o fora na mentalidade fixa.

Hoje no Dando o Fora: Thaís contra o Golem; Mentalidade fixa vs mentalidade de crescimento; Quando o essencialismo encontra a mentalidade de crescimento; O Efeito Golem; Dicas práticas para dar o fora na mentalidade fixa.

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Quando eu (Thaís) cheguei na Alemanha aos 16 anos, tudo mudou. Não só o país, mas a língua, a escola, os amigos, os professores. Foi uma baita adaptação. Um dia, meu padrasto chegou de uma reunião com o meu professor de alemão e coordenador da escola, Herr Schwarz:

—E aí, o que ele disse?

—Ele disse que não acha que você vai conseguir — meu padrasto anunciou sem pensar. 

—Como assim? 

—Ele acha impossível uma estrangeira do Brasil, sem falar uma palavra de alemão, conseguir não só aprender alemão mas também acompanhar as aulas ao ponto de conseguir passar no Abitur (o vestibular alemão). 

Quando escutei aquelas palavras, desabei. Senti o chão se abrir. Meu sonho de fazer uma faculdade nunca havia parecido tão distante. Como eu ia dar conta? Aprender uma língua nova (ainda por cima o alemão) e ao mesmo tempo conseguir terminar o colegial. Teria que aprender matemática, física, química, história, geografia, tudo em alemão. Não ia dar tempo. Chorei muito naquele dia. Mas depois algo em mim me disse que eu não tinha escolha, teria que tentar. Desistir não era uma opção. No dia seguinte, comecei a estudar.

Estudava todos os dias até depois da meia noite. Fiz aulas de reforço de inglês e alemão. Li o livro do Harry Potter e revistinhas estilo “Capricho” em alemão. Assisti a canais infantis. Mergulhei na língua do Goethe 24 horas por dia. Aos poucos, fui aprendendo, fui melhorando. Minha primeira nota em uma prova de alemão foi 5- (o que é praticamente um 1 no Brasil), mas 6 meses depois tirei um 4 (que equivale a um 5). Outros 7 alunos na sala (alemães) tiraram a mesma nota que eu. Eu estava chegando na média. Nunca cheguei à nota máxima 1 (10) mas terminei meu vestibular com 1.9 (meu objetivo era ficar abaixo de 2). Naquele dia, quando o Herr Schwarz me entregou meu boletim, pensei por um segundo naquele dia de inverno 3 anos e meio antes. Será que ele lembrava? Será que ele sabia que suas palavras poderiam ter mudado o rumo da minha vida?

—Você ainda pode tentar melhorar para 1.8 se fizer uma prova oral, — ele disse, com um sorrisinho no rosto. 

—Não, obrigada. Para mim 1.9 é bom o suficiente. 

Nunca falei nada para ele. Não acredito que tenha feito algo por mal, de forma deliberada. Aos 19 anos, eu entendi que a limitação era dele, do seu mindset (mentalidade). Nunca teve nada a ver comigo. Quando ele disse “ela não vai conseguir,” o que ele estava falando é “dadas as minhas experiências e a meu mindset, eu acredito que alguém sem conhecimento prévio de alemão, de um país de ‘terceiro mundo’ não conseguirá terminar o vestibular na Alemanha”. O foco aqui é na sua percepção e crença. Era uma opinião; não era uma verdade absoluta.

Me deixa triste pensar que muitas pessoas talvez nem tivessem tentado provar o contrário, ao ouvir um professor, pessoa com autoridade, emitir um veredito tão fixo. Como falamos na semana passada, temos o poder de aprisionar ou libertar pessoas com nossas palavras. De diminuí-las ou ajudá-las a crescer. Chamamos de Efeito Golem quando uma pessoa perde sua autoestima e não se percebe mais capaz de realizar seus objetivos por causa das expectativas negativas de um terceiro. Talvez não possamos mudar o que muitas pessoas (inclusive nossos pais, professores, e chefes, etc) pensam da gente. Mas podemos talvez aprender a decidir quais feedbacks deixaremos florescer em nossas mentes.

Bora dar o fora na ideia na mentalidade fixa?

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Mentalidade fixa vs mentalidade de crescimento

Por muito tempo acreditava-se que, após seu desenvolvimento, o sistema nervoso central se tornava rígido e qualquer alteração na região seria permanente. Felizmente, com a descoberta da neuroplasticidade, começamos a entender que até um cérebro adulto é capaz de se adaptar e se transformar.

Dentro desse contexto, o termo Mindset, ou mentalidade, vem ganhando cada vez mais destaque no que diz respeito ao comportamento humano. A visão que adotamos sobre nós mesmos afeta profundamente a maneira como conduzimos nossas vidas. Então, é mais que nunca importante observar e aprender mais sobre nossas crenças e mentalidades. 

Em seu livro Mindset: A Nova Psicologia do Sucesso, a psicóloga Carol Dweck divide pessoas (de forma bem categórica e generalista) de acordo com dois tipos de mindset:

  • Mentalidade fixa: Pessoas que acreditam que habilidades e características são pré-determinadas e imutáveis, e muitas metas são inatingíveis, mesmo que você esteja disposto a trabalhar por elas. Padrão de pensamento típico: "Ah, eu simplesmente não sou bom nisso".

  • Mentalidade de crescimento: Pessoas que acreditam na capacidade de melhorar e aprender constantemente, encarando desafios como oportunidades de crescimento. Metas podem ser alcançadas mesmo sendo difíceis. Padrão de pensamento típico: "Eu simplesmente não sou bom nisso ainda". É o "ainda" que faz toda a diferença.

A mentalidade fixa faz com que você se preocupe com a forma como será julgado; a mentalidade de crescimento faz com que você se preocupe em melhorar. Procurando mais sobre o assunto, fiquei com uma pergunta que ainda não consegui responder. Por que algumas pessoas parecem ser mais pré-dispostas a adotar uma mentalidade de crescimento do que outras? Sim, nossos cérebros podem se transformar, mas algumas pessoas parecem já estarem mais propensas a buscar o desconforto necessário para desencadear essa transformação, mesmo quando crianças.

Por exemplo, um estudo da própria Carol Dweck ofereceu a crianças de 4 anos uma opção: refazer um quebra-cabeça fácil ou tentar um mais difícil. Algumas crianças preferiram o quebra-cabeça mais fácil, dizendo que “Crianças inteligentes não erram”. Outras acharam essa opção estranha “Por que alguém escolheria fazer o mesmo quebra-cabeça de novo e de novo?”. Até mesmo aos 4 anos de idade, pessoas com uma mentalidade mais fixa de crescimento querem ter certeza de que vão conseguir, vão ter sucesso. Enquanto as crianças com mentalidade de crescimento acreditavam que aprender algo novo, mais difícil, já fosse sucesso suficiente. Aos 4 anos, quando crianças começam a ter a habilidade de se avaliar, algumas delas parecem já começar a ter medo de errar. De onde será que vem isso?

A verdade é que eu (Thaís) ainda não sei (viram como eu usei o “ainda” ;)). A própria Carol Dweck explica que muitas pessoas entenderam seu livro e sua pesquisa de forma errada, confundindo ter uma mentalidade de crescimento com o simples fato de ter a mente aberta ou ser uma pessoa positiva. A questão é mais complexa. Para a autora, todos nós temos uma mistura de mentalidades fixa e de crescimento, que muda com o tempo. Não existe uma mentalidade de crescimento pura, e reconhecer isso (em nós e nos outros) é fundamental para colher seus benefícios. Mesmo a nossa mentalidade fixa não é fixa e pode se transformar.

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Quando o essencialismo encontra a mentalidade de crescimento

Acredito que aprender mais sobre as diferentes formas de mentalidade seja algo muito útil, porém não suficiente e não necessariamente uma verdade absoluta. É uma forma útil de categorizar nossas diferentes crenças. Porém, precisamos ter cuidado para não abusar dessas categorias.

  1. Elevação do crescimento: A mentalidade dá imensa importância à melhoria contínua, sugerindo que a estagnação é igual ao fracasso. Entretanto, essa perspectiva pode transformar o crescimento em uma obsessão, mascarando o valor dos momentos comuns e do contentamento.

  2. Expectativas irrealistas: A crença de que o crescimento deve ocorrer em todos os aspectos da vida pode gerar uma pressão esmagadora e um sentimento de inadequação. Aceitar o insucesso estratégico em determinadas áreas pode oferecer uma abordagem mais sustentável.

  3. Negligenciar emoções incômodas: A mentalidade de crescimento geralmente ignora a necessidade de reconhecer e processar emoções negativas, como tristeza e decepção. Permitir-se vivenciar esses sentimentos sem se apressar em voltar ao modo de crescimento pode ser crucial para o bem-estar emocional.

Um caminho contra intuitivo para o crescimento genuíno envolve o insucesso estratégico, definido por Oliver Burkeman como “nomear antecipadamente as áreas de sua vida nas quais você não espera excelência". Como a vida é finita, você inevitavelmente fracassará em algumas coisas. E para a maioria das pessoas (inclusive eu), isso é profundamente perturbador. Porém, ao definir antecipadamente algumas áreas em que não esperamos ter o melhor desempenho possível, podemos aliviar a pressão e gerenciar nossas expectativas. Ao mesmo tempo, isso cria espaço para direcionar nossa energia e tempo limitados para as poucas coisas que realmente importam (essencialismo).

Quando estava na Alemanha, aos 16 anos, meu valor principal era minha educação formal. Queria entrar na universidade, porque acreditava que somente a educação poderia me dar o poder de escolha e um senso de controle sobre minha vida. Mas hoje vejo que isso não seja necessariamente verdade; vejo que eu poderia ter lidado com minha vida acadêmica de uma forma mais leve. Consegui alcançar minhas metas, mas foquei tanto nos meus estudos e em “crescer” que engordei 20kg sem mesmo perceber e acabei com uma pneumonia. Tinha focado demais numa área em detrimento de outras áreas de minha vida. Talvez a solução não seja nem 8 nem 80. Ter uma mentalidade de crescimento por si só não pode ser nosso único objetivo. Precisamos entender o porquê e em quais circunstâncias ela pode ser útil. E para isso precisamos entender, em cada momento em nossa vida, quais valores estamos querendo otimizar.

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Tornar-se é melhor do que ser. A mentalidade fixa não permite que as pessoas se deem ao luxo de se tornarem. Elas já têm de ser.

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O Efeito Golem

Se eu tivesse julgado meu potencial de terminar o colegial e ir para uma faculdade pelos meus fracassos iniciais, pela minha primeira nota na prova de alemão, eu nunca teria conseguido terminar a escola. Teria desistido logo no primeiro ano. Pensando sobre esse capítulo da minha vida, comecei a me perguntar: por que eu não desisti? Por que, apesar de ter chorado um dia inteiro, eu não acreditei em meu professor o suficiente para desistir de tentar? E de forma geral, por que algumas pessoas parecem mais propensas a acreditarem que não podem mudar enquanto outras procuram o desconforto, gostam de desafios e acreditam que podem sempre aprender?

Uma possível explicação vem do livro Potencial Oculto do Professor da Universidade da Pensilvânia, Adam Grant, que mostra como as expectativas que os outros têm sobre nós muitas vezes se tornam profecias autorrealizáveis. Em 1965 um psicólogo de Harvard, Robert Rosenthal, procurou uma escola primária dizendo que um novo teste de QI podia prever quais alunos iriam se sobressair no ano seguinte. Depois de algumas semanas, os professores receberam os nomes dos alunos que tinham um “potencial incomum de crescimento intelectual”. No ano seguinte, Rosenthal voltou à escola para mensurar como os alunos tinham se desenvolvido. Exatamente como o teste tinha previsto, os alunos “superdotados” tinham melhorado seu nível de QI em mais de 27 pontos. Além disso, eles eram mais curiosos, felizes e mais encaixados na escola. Aqui entra a pegadinha: O teste era falso. Os alunos “superdotados” tinham sido selecionados por Rosenthal de forma aleatória. O verdadeiro teste não era sobre os estudantes, mas sim sobre a narrativa central que impulsiona o relacionamento entre professores (ou pais, ou mentores) e alunos. A única diferença entre os alunos “superdotados” e os outros alunos estava na mente do professor. Os professores apresentaram atividades mais desafiadoras, ofereceram mais oportunidades para fazer perguntas, ofereceram mais apoio e feedback. Enfim, criaram uma espiral virtuosa que ajudou os alunos a desenvolverem seu potencial. 

Isso é a base do livro de Adam Grant - que está na base da mentalidade do crescimento. Precisamos olhar para os outros (nossos filhos, alunos, colegas, amigos, pais, etc) com uma nova narrativa. Ao invés de olhar para o outro e pensar “ele é mediano” ou “ele nunca vai aprender” precisamos pensar no potencial oculto de cada um.

Enquanto expectativas altas nos ajudam a escalar montanhas, as baixas podem nos segurar no chão. É algo que vemos acontecer especialmente entre grupos sociais mais estigmatizados. Porém, em uma pesquisa de 2020, Adam Grant e seu colega Samir Nurmohamed descobriram que é possível usar as baixas expectativas dos outros a nosso favor.

Os autores descobriram que o impacto das expectativas depende da credibilidade de quem as transmite: quando as expectativas dos observadores são vistas como mais confiáveis, as expectativas prejudicam o desempenho. Quando nos dedicamos a um objetivo e somos subestimados por especialistas, entendemos isso como uma ameaça. A descrença delas rapidamente se transforma em insegurança, impedindo nosso crescimento. Mas quando as expectativas dos observadores são vistas como menos confiáveis, as expectativas aumentam nosso desempenho (demonstrando o efeito azarão - efeito Underdog). Quando leigos duvidam de nós, nos sentimos desafiados. — Eles não sabem de nada — pensamos. — Eles vão ver só. 

É preciso, porém, diferenciar uma expectativa baixa sobre alguém “Você não vai conseguir” de um feedback construtivo “Você pode fazer melhor”. Não escutar um professor que te chame de burro, não quer dizer não escutar ninguém. O segredo é identificar quais informações devem ser absorvidas e quais podem ser ignoradas. É saber em quais orientadores ou mentores confiar.

Achei muito útil esse gráfico que divide a confiança em três componentes - cuidado, credibilidade e familiaridade. Se a pessoa que oferece o conselho não se importa com você ou não te conhece, não vale a pena se importar com a reação dela. Se não for qualificada, você pode ignorar e provar que está errada. Entretanto, se ela se importa com você, domina o assunto e conhece suas habilidades, então suas críticas terão o objetivo de te ajudar a crescer (o que não quer dizer que precisa acreditar em todas as críticas que ela fizer, mas pode pelo menos refletir sobre elas).

Isso foi exatamente o que acredito ter acontecido comigo e o Herr Schwarz. De uma forma meio torta, o fato de eu não acreditar na credibilidade dele (afinal, ele mesmo não tinha aprendido uma nova língua) e o fato de ele não me conhecer de verdade (eu era uma novata) fez com que eu encarasse sua descrença como um desafio. Ele sem querer acendeu uma faísca em mim e apesar de querer provar que ele estava errado, isso não era motivo suficiente para me fazer continuar, dia após dia, durante 3 anos de colegial. Eu estava determinada a entrar na faculdade porque era movida por algo maior. Algo que só hoje consigo verbalizar com clareza: um desejo de alcançar meu potencial, de estudar, me formar e contribuir - valores que até hoje me movem.

Dando o fora na mentalidade fixa:

Cinco práticas para mudar nossa mentalidade fixa e lutar contra o efeito Golem:

  1. Ouça a “voz” da sua mentalidade fixa: como dissemos na semana passada, podemos nomear a voz que nos diz que não podemos melhorar, crescer ou mudar. Isso ajuda a criar uma distância e tornar o processo mais objetivo.

  2. Reconheça que possui a mentalidade fixa:  O primeiro passo para a mudança de qualquer aspecto na vida é reconhecer que alguma coisa precisa mudar. Neste caso é preciso entender e aceitar em quais áreas ainda temos uma mentalidade fixa. Perguntas que podemos considerar: O que acontece quando essa voz aparece? Como eu reajo? O que a aciona (por exemplo, estresse, ansiedade, cansaço, deadlines, etc.)

  3. Identifique quais crenças quer mudar: Após reconhecer que sua mentalidade é fixa, é preciso abandonar algumas crenças que limitam o potencial. Antes de declarar que não conseguirá algo, tente. Lembre-se que não podemos mudar tudo ao mesmo tempo. Qual é minha prioridade hoje? Qual valor priorizar? Pode ser útil também decidir antecipadamente as áreas onde que falhar.

  4. Coloque o “ainda” no seu vocabulário: Prática simples mas poderosa. Acrescente o “ainda” no seu vocabulário. Fazemos isso constantemente com Arthur e em casa, como já falamos na nossa newsletter sobre o perfeccionismo.

  5. Seja impecável com sua palavra: lembre-se de que temos o poder de aprisionar ou libertar (a nós mesmos e outros) com nossas palavras. Antes de julgar a capacidade de alguém ou de emitir uma opinião sobre alguém, pergunte-se, isso vai ajudar a pessoa a crescer ou pode limitá-la? Eu tenho os três componentes de confiança (credibilidade, familiaridade e cuidado) para dar meu palpite? Na falta de um “sim", lembre-se que o silêncio é sempre uma opção.

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