A Armadilha da Produtividade.

Como a Thaís caiu na armadilha da produtividade; Você é verdadeiramente produtivo?; Os perigos da produtividade tóxica.

Hoje no Dando o Fora: Como a Thaís caiu na armadilha da produtividade; Você é verdadeiramente produtivo?; Os perigos da produtividade tóxica.

Nesta época do ano é difícil evitar a correria. Aquele sentimento de não dar conta. Fechar as contas, arrumar a casa, preparar a ceia, entreter as crianças, reunir a família, marcar presença em todas as confraternizações e em todos os grupos de whatsapp. Todos passamos por isto, e sempre nos prometemos que tudo vai mudar no ano novo.

Vini e eu desenhamos esta última Newsletter do ano para que você possa, de fato, fazer diferente em 2024. E quem sabe até neste finalzinho de 2023? Nunca é tarde para apertar o botão de pausa. 

Como diz o Adam Grant (sim, o mesmo psicólogo da semana passada) a produtividade nada mais é do que um "gerenciamento da atenção". Você precisa saber o que é importante para gerenciar sua atenção de forma eficaz. Dizer que "tudo é prioridade", querer dar conta de tudo, é uma noção equivocada de produtividade.

Afinal, a atenção não é apenas nossa moeda mais valiosa, mas também o presente mais bonito que podemos dar a alguém (todos os dias). Portanto, muito obrigado por nos dar sua atenção e precioso tempo neste exato momento, lendo nossos pensamentos. Esperamos que você goste e que possa utilizar a temporada de férias para fazer uma pausa, mesmo que seja apenas por um momento, e decidir suas reais prioridades para 2024. 

Feliz Natal e um ótimo Ano Novo da nossa família para a de vocês! Bora dar o fora em 2023 juntos?

O corpo sempre cobra.

Em Dezembro de 2002, minha mãe e eu nos mudamos para a Alemanha. Eu estava começando o colegial e logo na primeira reunião de pais, meu professor de alemão (Herr Schwartz) falou para meu padrasto com muita certeza que  eu não conseguiria acompanhar a escola, nem terminaria meu colegial a tempo. Chorei uma noite inteira. Mas após as lágrimas, veio a determinação. Decidi que iria sim terminar a escola a tempo, e com boas notas. Falhar não era uma opção (graças ao #DandoOFora, hoje eu sei melhor!). Comecei a estudar sem parar. Eu lia os livros em alemão com o dicionário na mão. Nas aulas de inglês, traduzia os textos do alemão para o inglês e do inglês para o português. Fazia minhas primeiras provas de matemática na base da intuição, já que não entendia os enunciados. Eu ia dormir tarde e acordava cedo (no meio da escuridão). Não tinha tempo a perder.

Após 6 meses de muita dedicação, veio o resultado com o primeiro boletim: 1.9, equivalente a 8.5 no Brasil. Convenhamos, nada mal. Vendo o resultado, comecei a estudar mais, a focar nas matérias que ainda precisava recuperar, como o próprio alemão. Mesmo com bons resultados, eu tinha sempre a impressão de que precisava correr atrás do prejuízo, correr quase que literalmente. 

Depois de quase três anos nessa velocidade, em novembro de 2005, a caminho da minha penúltima prova de física, eu desabei. Fui levada com urgência ao médico, que ao ouvir minha tosse me passou na frente dos velhinhos na fila de espera: “Thaís, você está com uma pneumonia grave. Não sei como você ainda está em pé”. 

Fiquei duas semanas de cama. Uma pausa total. Mesmo quando voltei à escola, mal conseguia andar. Minha recuperação foi longa e gradual.

Após tanto tempo sendo ignorado, meu corpo me obrigou a parar. Uma pausa involuntária, mas que essencial para que organizasse minhas ideias. Ao voltar à escola, me liberei de algumas matérias, aprendi a abrir mão do meu perfeccionismo e a comemorar minhas vitórias até ali. Acima de tudo, aprendi a diminuir a velocidade, a tirar o pé do acelerador - algo de que, vira e mexe, ainda preciso ser relembrada.

Bora dar o fora na armadilha da produtividade?

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A armadilha da produtividade.

Todos nós já passamos por isso: você consegue ser eficiente no trabalho, consegue liberar um pouco de tempo livre, mas em vez de descansar, o que você faz? Correto: preenche seu tempo livre com novas tarefas, resultando em maior carga de trabalho e estresse elevado. 

De acordo com Oliver Burkeman, esse fenômeno pode ser relacionado à revolução industrial, marcando uma mudança dos ritmos naturais da vida para um foco na maximização do trabalho em um tempo mínimo. Seu livro "Quatro mil semanas: Gestão de tempo para mortais" explora os desafios da gestão do tempo em uma sociedade hiperprodutiva e nos lembra da necessidade de equilibrar a produtividade com o bem-estar. O avanço da tecnologia digital com o objetivo de simplificar a vida humana intensificou ainda mais a fixação da sociedade na produtividade, criando uma cultura que glorifica o vício extremo em trabalho.

Todos os dias, criamos expectativas irrealistas, como responder a todos os e-mails da nossa caixa de entrada, passar tempo de qualidade com nossa família e amigos, fazer exercícios, ler um livro, dormir antes das 22 horas e assim por diante.

Mas essas tentativas sobre-humanas de fazer muito, assim como o bombardeio constante de novas dicas de produtividade, são contraproducentes. Ao querer maximizar o que fazemos, acabamos não fazendo nada, aumentando os índices de procrastinação, estresse, burnout e autodecepção (tópicos que já abordamos em newsletters anteriores).

Outra explicação para a armadilha da produtividade é o conceito da esteira hedônica, um termo que descreve como os humanos se tornam insensíveis a novos estímulos. O novo estímulo sempre tem que ser maior que o último, e por aí vai. A mesma lógica funciona para a armadilha da produtividade; ao atingir um novo nível (superior) de eficiência, a recompensa não é descansar, mas sim trabalhar ainda mais, numa busca frenética por mais produtividade.

Uma ironia cruel: a recompensa de alguém que trabalha duro é mais trabalho.

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Você é realmente produtivo?

Já que estamos falando sobre como pausar, vamos fazer uma pausa para considerar uma alegoria que o Jay Shetty compartilhou em seu podcast. Se você estiver dirigindo e se aproximar de uma curva, o que você faz? Acelera ou diminui a velocidade? E se você estiver passando por uma lombada? Provavelmente irá frear, pois sabe que será mais seguro (para você e para todos ao seu redor), além de ser melhor para seu carro a longo prazo. Por que então nos julgamos tanto ao nos aproximarmos das curvas da vida, de lugares desconhecidos, dos momentos onde realmente precisamos desacelerar? 

Nossa sociedade frenética, viciada na produtividade, considera que a ideia de não fazer nada é uma estratégia para pessoas preguiçosas. Vemos o desacelerar como um erro, um fracasso. Ainda mais quando nos comparamos a outras pessoas, através das imagens de vidas ilusórias divulgadas nas mídias sociais. Nos sentimos deixados para trás. A pressão de “alcançar” o nível dos outros só aumenta nossa ansiedade, nos fazendo acelerar ainda mais. 

Andamos com tanto medo do tédio e do silêncio que preferimos levar choque a passar 15 minutos sozinhos com nossos pensamentos, como mostrou esse estudo.

Em nossa busca por "fazer mais" para fugir das nossas inseguranças emocionais, perdemos de vista o verdadeiro significado de produtividade. Ser produtivo tem menos a ver com o tempo disponível e mais com o fato de termos nossas prioridades em ordem. A produtividade não se trata de fazer mais coisas, mas sim de fazer as poucas coisas certas.

Todos os problemas da humanidade decorrem da incapacidade do homem de ficar quieto, sozinho em uma sala.

Blaise Pascal

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Os perigos da produtividade tóxica.

A pressão da sociedade para darmos sempre nosso esforço máximo chega a ser perigoso. Como explica Seth Godin, sistemas podem ficar estressados por períodos curtos, mas eles se esgotam muito mais rapidamente se exagerarmos continuamente. A hipervigilância exigida para ir o tempo todo a toda velocidade não nos dá espaço para respirar nem para melhorar. E o pior de tudo, se estivermos sempre em ritmo acelerado, nos privaremos da possibilidade de aumentar a velocidade nos momentos certos. 

Os principais problemas decorrentes da produtividade tóxica incluem:

Ansiedade: O desejo de dar o melhor de si, misturado ao medo de não conseguir lidar com a carga de trabalho, pode criar um ciclo de ansiedade e medo crônicos.

Culpa: A cultura da produtividade promove o vício no trabalho, fazendo com que as pessoas se sintam culpadas ao tirar férias ou priorizar o autocuidado. A culpa pode desencadear a síndrome do impostor, criando uma falsa visão de que somos preguiçosos ou improdutivos.

Apatia: Trabalhar constantemente no limite da capacidade pessoal esgota invariavelmente as reservas de energia, levando à apatia, em que tudo parece desprovido de significado ou propósito.

Auto-negligência: A busca incessante por produtividade pode resultar em um desequilíbrio entre trabalho e vida pessoal, afetando relacionamentos, hobbies e o bem-estar. 

Doenças: O trabalho intenso sem descanso adequado aumenta o risco de problemas de saúde, inclusive doenças cardiovasculares, exaustão física e emocional e esgotamento. Por exemplo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, trabalhar 55 horas ou mais por semana está associado a um risco estimado 35% maior de sofrer um derrame e 17% maior de morrer de doença cardíaca isquêmica, em comparação com trabalhar de 35 a 40 horas por semana.

Fonte: Unsplash.com/Jonathan Fink

Dando o fora:

Dando o fora na produtividade tóxica:

  1. Ouça seu corpo e sua mente. Preste atenção aos sinais de cansaço, estresse ou fadiga. Se não estiver se sentindo à altura da tarefa, seja física ou mentalmente, faça uma pausa ou veja se pode fazer isso mais tarde, quando estiver melhor. Estudos mostram que breves pausas mentais ajudam a manter o foco na tarefa e que as áreas cerebrais associadas à solução de problemas complexos ficam altamente ativas quando nossas mentes divagam.

  2.  Priorize. Limitar o número de tarefas simultâneas e concentrar-se no que é mais importante ajuda a focar nas grandes decisões e evitar a fadiga de decisão. Coloque primeiro as pedras grandes no vaso da vida, e as pedras pequenas se encaixarão. 

  3. Gerencie seu tempo. Atribua intervalos de tempo específicos para diferentes tarefas ou atividades para manter o foco e evitar o excesso de multitarefas. Foque no importante e não no que é aparentemente urgente, simplificando sua lista de tarefas e liberando tempo para o trabalho significativo e o lazer.

  4. Aprenda a dizer não, inclusive para você mesmo. Estabeleça limites e evite se comprometer demais com diferentes tarefas. Crie espaços para desconexão: coloque seu telefone no modo avião, reduza o número de alertas e notificações. Proteger nosso espaço e procurar a quietude nos ajuda a controlar impulsos, evitar distrações e ter grandes ideias, como explica Ryan Holiday em A quietude é a Chave.

  5. Comemore suas vitórias. Crie uma lista das tarefas realizadas diariamente. Reconhecer até mesmo os pequenos sucessos pode mudar positivamente sua perspectiva sobre a produtividade, promovendo maior satisfação com suas realizações.

  6. Aproveite a vida sem culpa. Viaje, leia (inclusive newsletters), ouça música, aprenda algo novo só para se divertir, passe tempo com a família e amigos. Afinal de contas, é isso que nos dá energia para novas conquistas.

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